ó magnífica insignificância

Como todo mundo na adolescência eu fui uma adolescente meio perturbada, cansada e revoltada ao subitamente me sentir carregando o mundo inteiro em minhas pequenas costas sem entender o propósito de nada. Eram tantas perguntas sem respostas e problemas sem soluções que a dor era sentida em cada centímetro de pele.

Em algum momento comecei a assistir menos documentários sobre animais e mais sobre o universo, e foi aí que meu cérebro se estatelou todo. Tinha alguma coisa de extremamente hipnotizante em assistir aquelas mulheres e homens com cara de doidos falando sobre galáxias, supernovas e buracos negros. Algo no fascínio que eles tinham na voz ao falar sobre eventos que poderiam ou não acontecer daqui há sei lá quantos trilhões de anos.

Eu só pensava no quão frustrante deveria ser passar a vida inteira estudando algo que você jamais conseguiria ver acontecer, mas a voz empolgada e o brilho no olhar que todos eles tinham me diziam o contrário. Depois que acabava o episódio eu continuava sentada em silêncio pensando nas pessoas na tela, em como seriam as casas delas por dentro, que tipo de conversas teriam com as famílias, que tipo de atividade fariam num domingo à tarde, o que almoçariam no trabalho.

Subitamente essas pareciam ser as pessoas mais interessantes do planeta simplesmente pelo fato de elas conviverem diariamente com infinitas provas que não somos absolutamente nada. Claro buracos negros são interessantíssimos, mas o mais incrível sobre eles é o fato de existirem no mesmo universo que nós. Tudo isso que existe agora, logo ali, nesse mesmo momento em algum lugar.

Tem uma humildade extrema que brota dentro de nós no momento em que paramos para refletir sobre a amplitude de tudo isso. Nós não somos absolutamente nada. Nossos problemas não são absolutamente nada. Nossos planos não são absolutamente nada. E apesar disso cá estamos, correndo desesperadamente de um lado para o outro como se tudo o que fala sobre nós fosse de extrema importância.

A insignificância me fez livre. Todo aquele peso que esmagava minhas costas se desintegrou diante dos meus olhos. Pela primeira vez deixei de me ver e entendi o quão absurdamente irrelevante eu sou. Todas as dúvidas que eu tinha em relação a que faculdade fazer evaporaram quando de dentro da minha cabeça mudei a perspectiva para fora da Via Láctea. Sentada no sofá debaixo de uma coberta fofinha numa tarde de inverno, sorri. Se eu não sou absolutamente ninguém, eu vou simplesmente ser feliz.

Lembro de compartilhar essa epifania com algumas pessoas e receber como resposta um "que deprimente", acompanhado de um olhar de julgamento e a morte súbita do assunto, que passava a voltar para alguma coisa cotidiana qualquer. Eu só queria ir mais longe ainda, além do além e, não fosse toda a matemática e física envolvida, provavelmente naquele momento teria cogitado estudar astronomia.

Hoje, anos depois, encontrei uma forma de voltar a estar além do céu. Entendi que a sensação indescritível que tenho ao estudar astrologia é a mesma que sentia naquelas tardes de inverno assistindo aqueles documentários.Numa volta longa e talvez um pouco aleatória, encontrei meu caminho de volta para o nosso universo e tudo de insignificante que tem dentro dele, e isso sem contar os vários outros que acredito estarem existindo simultaneamente por aí. Ao interpretar a linguagem dos planetas me vejo tão fora de mim que a Terra se torna apenas um pontinho no escuro como tantos outros, às vezes até ela some.

Me sinto leve.

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pelo visto esse é o meu diário

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