03 — estou viva

Me alertaram tanto sobre o frio. Me lamentaram tanto sobre o frio. Me deixaram preocupada com o frio. Dei de cara com o frio e me lembrei que na verdade eu exulto no frio. Descargas de energia correm pelas minhas veias e fazem eu sentir a vida que existe dentro de mim, e eu, junto a ela, pulso, pulo, saltito e corro de um lado para o outro por simplesmente não conseguir parar quieta. Subi por uma rua e quase fui arrastada para trás pelo vento forte que correu de encontro a mim. Vento gelado que cortou meu rosto como navalha e, ao fazê-lo, levou embora tudo o que eu sou e tudo o que tento ser e me deixou ali enquanto me levou para todo lugar. Penso que gostaria de um dia subir uma montanha.

Agora o vento urge lá fora, e uiva. Uma chuva leve cai e aparece somente pela luz amarela dos postes que se refletem nas poças úmidas do asfalto. Pronta para dormir, aqui dentro já me aqueci e estou no auge do conforto debaixo das cobertas macias enquanto assisto o espetáculo gélido lá de fora. A chuva cai dançante em zigue-zague, espiral e qualquer outra forma que não na vertical. O frio bate nas janelas e faz os vidros chacoalharem com insistência. Meus olhos caem no ponto vazio no centro da rua e de tudo. Subitamente me parece errado me sentir amena e desejo estar lá no meio, fazendo parte desse espetáculo que se apresenta diante dos meus olhos e rir compulsivamente enquanto meu corpo inteiro treme.

Tiro o cobertor de cima de mim. Me levanto. Ando até a porta da sacada.

Abro a porta e inspiro.

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pelo visto esse é o meu diário

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