1º mês | tem sido incrível estar aqui

Já se passou um mês desde que decidi entregar à escrita a minha vida. Um mês de estar aqui todos os dias refletindo, analisando, sentindo e revivendo momentos que me parecem dignos de serem mantidos vivos. Agora já me parece um absurdo viver sem registrar. Me parece um desperdício enorme deixar que dias se passem um atrás do outro sem parar para admirá-los passar.

Sempre me senti refém do tempo, como se ele passasse através de mim feito fantasma, gelando meu corpo e me fazendo sair do meu eixo, mas agora o vejo como véus estendidos em um varal infinito e quem passa através dele sou eu [tipo Interestelar mesmo]. Acabei me tornando o fantasma que eu tanto temia. Talvez esse tempo todo os arrepios na nuca que sempre senti foram na verdade eu mesma voltando atrás e entrando em meu próprio corpo na tentativa de lembrar na pele o que naquele momento foi presente. Percebi que gosto mais de ser fantasma do que de ser gente, mas só consigo ter para onde ir como fantasma se primeiro eu deixar em meu acervo de memórias lugares que só consigo chegar com meus próprios pés.

Aprendi que realmente sou uma nova pessoa a cada dia e o que ontem foi meu mundo inteiro hoje já pouco me importa, já foi, já passou. Tudo me reforça a ideia de que sim, essa foi a melhor ideia que eu já tive na minha vida porque essa é com certeza a ideia da minha vida, foi para isso que eu vim, é para isso que eu sirvo, é aqui que eu vou deixar a minha marca em forma de palavras escritas aos montes e largadas ao vento. Não me faz sentido nenhum me editar até a perfeição porque a perfeição é o que simplesmente é; a cor pintada fora da linha fala mais sobre quem pinta do que a própria linha, é o erro que faz a parada e eu sou um amontoado de erros em forma de gente que só faz sentido se for borrada. Não nasci para fazer uma obra perfeita, nasci para ser imperfeita aos montes e para todos os lados.

Comecei essa loucura sem numerar, só deixando a data, mas pensei no quão incrível vai ser chegar no dia 279 e poder ver que por duzentos e setenta e nove dias seguidos eu escrevi todos os dias. Não sei ainda o que isso vai se tornar, mas acho que só vou descobrir fazendo, então continuo aqui indo sem saber para onde vou confiando que meus pés — ou, nesse caso, meus dedos — me levem para onde eu preciso ir. Comecei a numerar também porque costumo perder a conta das coisas e costumo também me sentir atropelada pela vida. Essa é minha forma de deixar bandeiras vermelhas nas árvores por onde passo para que eu possa trilhar o caminho de volta caso em algum momento me perca.

Passou-se um mês desde que comecei e me parece que já se passou toda uma vida. Não é novidade nenhuma que a escrita é terapêutica, mas quero acrescentar a minha voz ao coro. Tenho aprendido tanto sobre mim que quando começo a não me entender a primeira coisa que quero fazer é me sentar e escrever. Melhor ainda do que escrever tem sido voltar atrás e me reler. Aqui encontro paralelos entre momentos que talvez de outra forma eu jamais encontraria e consigo acompanhar todo o desenvolvimento dos processos internos que vivo. O tempo cura e o tempo ensina, mas parece ter um efeito muito mais forte quando paro ao seu lado como faria a um mestre e o observo com olhos atentos trabalhar.

Passou-se um mês desde que comecei e me sinto cada vez mais feliz de continuar. Vejo como minha escrita muda de acordo com o meu estado interior e com o que acontecia ao meu redor. Alguns dias tive preguiça, em vários tive sono e em muitos comecei sem saber sobre o que diabos eu iria escrever, mas escrevi. Nos dias que não consegui terminar deixei pelo menos todo o esboço pronto do que eu queria falar e continuei na manhã seguinte. Me atrasei um pouco em alguns momentos, mas tudo bem porque ainda estou pegando o jeito, ainda estou criando o meu jeito. Nem sempre é sobre o que eu escrevo, às vezes é sobre o como eu escrevo, de onde eu escrevo e sobre o que eu penso que talvez seria melhor não escrever, mas mesmo assim escrevo porque me entreguei de corpo e alma a esse lugar que eu mesma criei só para mim e é justamente minha alma que quero deixar aqui registrada em forma de palavras.

Que aconteça o que tiver que acontecer, o que eu quero mesmo é falar sobre.

08 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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