10 — devaneios sonolentos

Hoje falei muito. Falei tanto que nem tenho mais o que falar. Ontem falei sobre ficar em silêncio e ouvir, pois hoje penso em falar sobre pensar. O que? Não sei bem. Ainda não desenvolvi. Admito que bateu o cansaço depois de doze horas de viagem de carro e os pensamentos não estão com muita vontade de chegar até mim. Quem chega até mim sem medo nessa hora é o sono. Já aviso que esse vai ser um daqueles meio sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo, talvez meio incoerente, mas sei lá, também gosto desses fluxos desconexos de vez em quando.

Costumo deixar minha mente vagar sem filtro, sem pensar sobre o que penso e só deixar que flua o que vier. Isso, aprendi, faz com que eu consiga falar para sempre se me deixarem, porque um assunto puxa outro que puxa outro que puxa outro e por assim vai. Isso também faz com que eu esteja ouvindo o que eu falo — ou, nesse caso, lendo o que escrevo — ao mesmo tempo que quem me escuta — ou lê. É tudo surpresa para mim também. Realmente não sei o que vem depois disso aqui, talvez seja grandes coisas, talvez sejam becos sem saída, só vou saber indo.

Sempre tive um negócio com madrugadas. É a melhor hora para eu escrever. A hora que o mundo dorme e reina o silêncio, a hora que nada me interrompe e nada me distrai, a hora que se apagam as luzes de fora e se acendem as luzes de dentro. Desde a época da escola, eu podia passar o dia inteiro focada em escrever os trabalhos que tinham que ser entregues — normalmente no dia seguinte, diga-se de passagem — , mas em tantas e tantas horas de frustração só saía um parágrafo e olhe lá, mas era só todo mundo ir dormir e o mundo se silenciar que os dedinhos começavam no tectectec frenético que é a única coisa que ouço também agora.

Por muito tempo — e até hoje às vezes — foi exatamente essa súbita clareza mental que me impediu de dormir quando precisava. Os pensamentos que antes se embaralhavam todos do nada começam a fazer sentido e textos enormes são escritos em minha mente. Por isso escrever antes de dormir também, apesar de me manter acordada por um tempo a mais em atividade, me faz conseguir dormir quando finalmente coloco a cabeça no travesseiro. Eu costumava ter bastante dificuldade com isso e ficar me revirando por horas e horas até finalmente apagar de cansaço. Várias coisas ajudaram, como meditação e yoga, mas acredito que a maior parte dessa mudança é porque hoje consigo botar para fora tudo o que antes ficava girando e girando aqui dentro, tanto conversando quanto aqui.

Agora já não tenho mais fluxo, tenho águas paradas que insistem em querer me afundar. Me debato de boias nos braços, tentando resistir mais um pouco e quem sabe conseguir chegar a algum lugar, mas os músculos já falham de cansaço e as boias foram murchando. Quem sabe se eu desistir de atravessar para o outro lado e me deixar levar eu consiga descobrir um novo mundo lá no fundo.

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pelo visto esse é o meu diário

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