100 | almorragia interna

Usei minha voz pra me colocar pra fora e agora que me vejo esparramada pra todo lado tremo no lugar querendo mais do que tudo conseguir limpar tudo de mim no chão nas paredes no ar limpar tudo de mim que caiu pra fora tudo de mim que eu tirei de mim tudo de mim que ocupa o espaço ao meu redor ao invés de estar seguro trancado dentro.

É tarde demais, seus olhos nos meus me falam que já fui vista, pega no flagra me sendo quando devia tentar ser uma versão reduzida filtrada uma versão modesta humilde uma versão de mim que é menos eu. Onde já se viu assumir a própria personalidade a própria vontade a própria voz o próprio corpo a própria vida, onde já se viu?

Não é meu corpo que não se sente seguro porque o corpo não tem nada a ver com isso, ele é veículo, armadura, carapaça, tupperware que segura minha alma escondida e protegida hermeticamente armazenada resfriada preservada dentro sempre dentro pra dentro por dentro de mim.

Mas a tampa caiu uma fresta se abriu pela brecha saiu uma parte de mim que em temperatura ambiente começa a derreter e perder a forma e quanto mais eu tento limpar mais lambuzo tudo de mim chega de mim fecha os olhos espera aí deixa eu recolher tudo de novo espera aí pera rapidinho deixa eu me recolher do chão antes que alguém me pise toda deixa eu me limpar de mim porque agora tem eu pra todo lado e eu só quero deixar tudo de mim guardado por favor espera aí para de olhar pra mim desse jeito para de olhar fecha os olhos por favor espera aí deixa eu recolher meus cacos e me montar de novo e fechar a tampa e fechar a porta e voltar a ver tudo pelo vidro fechado pra manter a tempestade aqui dentro sem respingar e molhar tudo que tenho em volta.

Sem tempo pra pensar nem reagir nem conseguir lidar soco tudo de qualquer jeito pela boca mas é muito de uma vez e entala na garganta e tenta sair de novo pelos olhos mas eu seguro eu seguro deixa comigo que eu consigo eu seguro deixa que eu me engulo eu aguento tira a mão deixa que eu me engulo deixa que eu me seguro deixa que eu me aguento para de me olhar assim porque desse jeito eu não consigo me concentrar em me guardar e eu preciso botar tudo de volta pra dentro já faz muito tempo e quanto mais tempo mais de mim fica a mostra podendo ser visto e pego na mão e mexido de qualquer jeito e não é que eu não confie em você mas meu bem mais precioso sou eu mesma então por favor tira a mão me deixa pra dentro deixa que eu me engulo eu me seguro nó na garganta lágrima no olho inquietação nas mãos deixa comigo me deixa comigo por favor me deixa comigo.

Mal encaixada mas segurando a onda seguro a onda porque não posso começar a chorar aqui logo antes de encontrar com outras pessoas que nada tem a ver com o que eu sinto e depois que a torneira abre ela não fecha mais então seguro a onda mas mal encaixada é só dar um movimento em falso que a tampa cai de novo então não faço movimentos bruscos não falo muito não é porque eu não quero é porque eu não consigo eu preciso do escuro eu preciso me esconder pra me arrumar de novo sem que ninguém veja fecha a porta fecha a porta apaga a luz me deixa quieta aqui no canto por favor me deixa quieta comigo mesma que eu me ajeito eu me seguro eu me engulo enquanto eu preciso mas com o nó na garganta eu não consigo falar eu preciso me vomitar então não me pede pra falar por favor eu só preciso de um tempo pra despejar tudo pra fora de novo num lugar seguro e me organizar de novo pra tampa hermética fechar e me armazenar me resfriar por favor espera aí.

Vou ali rapidinho. Aviso assim que posso e corro pro banheiro me olho no espelho e vejo nos olhos a brecha a fresta por onde daqui a pouco vou começar a transbordar e virar cachoeira e inundar a casa inteira. Me olho nos olhos e me faço barragem me engulo me seguro me tranco me travo me isolo me protejo me guardo segura pra dentro. Me olho nos olhos e me faço barragem me faço barragem espera aí segura depois você deságua depois eu te abraço depois eu te cuido depois eu te ouço espera mais um pouco por favor se segura só mais um pouco depois eu te ouço segura a onda me faço barragem me faço barragem me seguro eu consigo respira fundo respira fundo me faço barragem me isolo me guardo eu consigo eu consigo eu consigo.

Me olho nos olhos e ouço silêncio. Respiro fundo mais uma vez pra estabilizar o que se assenta ali dentro. Me olho nos olhos e não mais me vejo. Pronto.

13 de dezembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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