105 | me carrego no colo quando não consigo caminhar

Por muitos dias passei ocupada, fazendo disso, fazendo daquilo, rindo e chorando em companhia. Pois acabo ficando completamente sozinha em casa e aproveito do silêncio para deitar na rede da varanda e ler o livro muito bom que tem se arrastado em minhas mãos pela falta de tempo e disposição.

De canto de olho vejo algo se movendo, mas finjo não ver. Os passinhos leves e tímidos vão se aproximando hesitantes e sei exatamente quem vem lá, mas justamente por saber finjo não ver pois sei também que movimentos bruscos a assustam fácil e a fazem voltar a se esconder. Continuo olhando para a página sem realmente ler enquanto espero pacientemente a figura que avança enquanto se esconde, meio brincando meio sentindo como se fosse questão de vida ou morte chegar perto sem ser vista.

Uma mãozinha aparece pela borda da rede e me cutuca o braço. Olho para o lado e vejo dois olhinhos verdes me espiando feito jacaré debaixo d'água. Oi. Ela se abaixa mais um pouco sem tirar os olhos dos meus. Quer subir? Ela pisca sem responder. Vem. Largo o livro na mesinha e abro espaço ao meu lado. Ofereço o braço para a ajudar a subir, mas ela permanece imóvel. Sorrio pois sei exatamente o que isso significa e volto a me sentar como antes.

Ela desaparece e passa por baixo de mim, estudando a rede com os olhos e as pontas dos dedos. Num impulso pula e se agarra na ponta, me fazendo balançar. Com muito esforço escala o tecido e depois de um tempo brincando sozinha vem se aninhar ao meu lado.

Ela pega minha mão e começa a brincar com meus dedos e eu respeito seu silêncio lhe entregando o meu em retorno. Sentamos ali por um bom tempo até que ela me olha nos olhos de novo, ainda sem falar nada. Sei o que ela sente porque a sinto dentro de mim e levanto o braço para que se deite em meu colo. Ela se entrega ao abraço feito sob medida pra ela e suspira.

Os bracinhos pequenos me abraçam e me apertam com toda a força que conseguem. Ela sentiu minha falta. Eu sei, me desculpa. Seguro seu queixo, levanto seu rosto, beijo sua testa e sorrio. Também senti sua falta. Ela sorri um sorriso tímido de volta e com vergonha enfia o rosto em meu colo. Acaricio seus cabelos e ali ficamos duas eus balançando na rede num abraço apertado.

Penso nas vezes que a senti por perto e a ignorei. Ela me demanda muita presença, mas a vida também. Tento segurar sua mão e levá-la comigo pra onde preciso estar, mas ela logo se cansa e quer colo, não entende porque não podemos ficar só nós em casa pra sempre, quer minha atenção toda pra si e dividida não consigo fazer nada direito. Vez ou outra ela se distrai ou se sente segura o suficiente para largar minha perna e brincar ali por perto, mas a vida é assustadora demais pra uma criança sensível e ao primeiro barulho alto ela volta correndo pedindo abrigo dentro de mim. A aninho entre as costelas e sigo o dia carregando mais peso do que aguento, mas antes eu do que ela, então faço questão de comer mais.

Nem sempre as outras pessoas entendem, talvez porque as crianças delas sejam mais sociáveis ou independentes, mas a minha só fica realmente confortável quando estamos só nós duas. Ela sente demais e por isso se sente sempre exposta, sempre vulnerável, sempre suscetível a qualquer mudança no ambiente ao seu redor. Medrosa, assustada e extraordinariamente carinhosa.

Juntas brincamos, dançamos, pintamos, cantamos, choramos, gritamos, rimos, mas entra outra pessoa na sala e ela se esconde atrás de qualquer coisa que esteja à sua frente deixando apenas os olhinhos de jacaré à mostra. Ela aperta minha mão com força e eu a aperto de volta, deixando claro mesmo sem olhar pra ela que pode contar comigo, que vou ajudá-la a continuar escondida até que se sinta segura o suficiente pra sair. As pessoas perguntam onde ela está porque querem a conhecer e dou de ombros, não sei, não interessa, deixem-na em paz. Ela não vai ter que interagir com ninguém que não queira e isso eu lhe prometo. Pode se esconder, mari, ninguém vai te incomodar aqui dentro.

Também me assusto e também me é difícil lidar com a vida, afinal, ainda sou ela, mas agora sei que preciso de mim e me faço forte pra que ela não precise ser, pra que ela possa continuar sendo a criança sensível que é sem que o mundo a leve a acreditar que é errada ou quebrada. Me faço forte pra que ela possa se sentir segura mesmo quando eu mesma não me sinto. Acolho seus medos e suas inseguranças e nesse abraço encontro também o conforto que preciso em saber que demando muito cuidado, sim, mas tudo bem porque a coisa que eu mais amo no mundo é cuidar de mim.

18 de dezembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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