110 | pra lá e pra cá

E cá estou em mais uma bolha temporal. Não sei quantos dias se passaram e nem quantos ainda faltam, mas a vida agora virou essa e já mal me lembro do mundo ao qual em breve vou ter que voltar. Percebo que me é mais fácil sentir falta do que estou vivendo do que já passou. Como se o presente fosse há muito já passado, vivo memórias em tempo real.

É tão fácil me desconectar da realidade que preciso fazer esforço pra me manter na superfície, como a escolha consciente da mandíbula em se segurar o dia inteiro pela ponta dos dedos quando poderia simplesmente relaxar.

Meu corpo cede e derrete na rede que balança pra lá e pra cá e pra lá e pra cá e meus olhos balançam e cedem na rede pra cá e pra lá e quanto tempo já se passou desde a última vez que eu falei alguma coisa? Você fala comigo e eu ouço minha resposta ecoando na mente, mas nada sai pela boca. Não interessa, você ouve minha resposta na própria mente, ou lê ela em meus olhos, não interessa, você ouve minha resposta e a responde de volta em voz alta, ao que eu respondo dentro da minha mente sem sair nada pela boca, mas você entende e continua. Quanto tempo já se passou desde a última vez que eu falei alguma coisa?

Eu no meu e você no seu, compartilhamos de um silêncio conjunto preenchido pelos sons da rua, vez ou outra interrompido por um mosquito safado que ousou chegar perto demais.

23 de dezembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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