113 | se eu sou lichia, você é caju

Se eu fosse uma fruta, que fruta eu seria? Você respondeu que fosse eu uma fruta, eu seria uma lichia. Agora decido entre comer mais uma das duas que ainda restam na vasilha ou escrever porque os dois ao mesmo tempo não dá já que lichia demanda muita atenção pra descascar e lambuza os dedos.

O dia inteiro passei com vontade de escrever, precisando escrever, inspirada a escrever, mas sem saber exatamente o quê. Pensando bem, mais que o dia inteiro porque ontem quando saí do banho, me vesti e me deitei ao seu lado enquanto jogava o jogo novo que acabou de ganhar também senti um impulso muito forte de escrever, tanto que peguei o caderno e a caneta e comecei a escrever, mesmo sem saber o quê.

Foi algo sobre o jeito que ficamos concentrados na tv com as bochechas coladas uma na outra e os corpos escorados um no outro que me cercou daquela magia que em minha mente toma a forma de pó dourado, uma referência que você só vai entender depois que finalmente ler A Bússola de Ouro que te emprestei e descansa na mesinha ao lado da mesma cama na qual deitamos com bochechas coladas e corpos escorados concentrados no jogo na tv, só que na verdade eu só olho pro jogo na tv sem enxergar nada porque a minha atenção está toda no pó dourado que nos cerca e que agora que escrevo sobre cerca também meus dedos gelados no teclado.

Tenho tentado escrever sobre tantas coisas e sinto que não tenho conseguido muito bem e acho que talvez eu não tenha conseguido porque tudo o que eu tenho vontade de escrever sobre é você. Mas o que escrever quando nem falar em voz alta eu consigo? Ou será justamente porque não estou escrevendo que não consigo falar? Ovo ou galinha, tanto faz, só sei que fico parada em silêncio, parada, te olhando, em silêncio, parada, olhos cheios de lágrimas, sorriso brotando do silêncio, parada, te olhando, sentindo, em silêncio, parada, te olho.

E mesmo assim você parece entender tudo o que digo sem dizer e eu acho que entendo tudo o que você me diz sem dizer e continuamos em silêncio nos olhando balançados parados na rede com a gata no colo entre nós e o cobertor por cima porque hoje faz frio e mesmo eu com moletom sem meia e você com meia sem moletom sentimos frio aqui fora na varanda nesse dia chuvoso e triste e melancólico que alimenta a saudade que já sentimos do momento que estamos vivendo no momento exato em que ele acontece.

Nos vejo cinzas como o dia cinza e nublados como o dia nublado e chuvosos como o dia chuvoso e me lembro do outro dia em que chovemos como a chuva que chovia e inundamos como a rua que inundava e escorremos como a água que escorria e me parece que realmente somos ambos muito suscetíveis ao clima. Também nós já nos pomos com o sol que se punha, nos queimamos feito meio dia e tempestamos quando lá fora tempestava. Penso que talvez seja o clima suscetível a nós.

Quero falar sobre o tanto que vejo quando te vejo e sobre o tanto que sinto quando te sinto e sobre o tanto que ouço quando te ouço e sobre tudo o que tudo isso faz brilhar mais forte, mas tudo brilha tão forte que nem consigo falar sobre e permaneço em silêncio, parada, te olhando em silêncio e parada diante desses seus olhos tão brilhantes mais uma vez.

Nesse estado de contemplação e existência nublado como o céu, deixo o frio tocar minha pele e sinto a saudade de todos esses futuros que mesmo que nunca venham a ser, nesse momento foram tanto que os sinto já como memória.

26 de dezembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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