114 | jetlag

Depois de ter vivido toda uma vida inteira volto pra casa, minha casa, e ela parece menos casa do que um dia já foi enquanto ainda definitivamente casa. Os gatos vem me dar um esfrega de boas-vindas, de saudade e de onde-diabos-você-esteve-esse-tempo-todo-que-não-aqui-me-amando? Largo as mil bolsas no chão onde depois vou voltar pra devolver cada coisa ao seu lugar, mas não agora porque preciso chegar em casa primeiro.

O grito vem do quarto e logo depois chega até mim o abraço que logo vira pulinhos e volta a ser abraço até que se separa em olho no olho e depois se junta de novo em mais um pouquinho de abraço. Quanto tempo faz que a gente não se vê mesmo? Me parece muito tempo.

Tomo mais um banho porque mesmo que já tenha tomado não faz muito é lei que quando se chega em casa se deve tomar um banho no próprio chuveiro. Saio e descubro que minhas roupas preferidas todas se encontram nas bolsas no chão prontas pra serem lavadas e percebo que meu armário está entupido de roupas que não servem mais a quem eu sou agora, preciso fazer uma limpa.

É bom estar em casa e ainda assim é estranho. Um baque na rotina que já não era estabelecida e nem estava sendo muito funcional, mas ainda assim rotina, me levou a girar e girar e girar no mesmo lugar de olhos fechados e agora que parei não sei bem pra onde estou olhando, tudo gira ainda ao meu redor e já é noite e as luzes fluorecentes horríveis de teto continuam ligadas. Saio andando desligando tudo e deixando a iluminação por conta dos abajures coloridos.

Abro a geladeira e já não sei mais o que eu como ou deixo de comer. Tenho fome e tem comida pronta, vai ser isso mesmo e que bom que foi porque estava uma delícia, mas ainda assim tenho mais fome do que a comida consegue saciar e faço logo um monte de pipoca que é devorado como se não houvesse amanhã e muito menos daqui há meia hora.

As conversas não lidas no celular seguem não lidas e vão continuar por mais um pouco porque, sinceramente, não tenho condições de cogitar a existência de um mundo fora do meu nesse momento, que dirá esse tanto. Todo mundo quer se reunir e se encontrar e eu também quero ao mesmo tempo que só quero dormir por cinquenta anos ao mesmo tempo que quero ler todos os trinta livros ainda não lidos na minha estante que agora são trinta e dois porque ganhei mais uns de presente e por mais que eu queira ler não há espaço em minha mente pra mais palavras.

Vomitei um monte de pensamentos e acho que te deixei confuso, mas também estou confusa já tem um tempo e quanto mais o tempo passa mais confusa eu fico, então achei melhor comunicar confusão e nos perguntarmos juntos do que continuar espiralando sozinha. Vomitei um monte de pensamentos e acho que te deixei triste, mas eu também estou triste já tem tempo e acho importante que sintamos essa tristeza juntos, então deitamos na rede e choramos abraçados em silêncio por algum tempo antes de dormir cada um no seu canto da cama de mãos dadas.

27 de dezembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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