120 | fechada pra fora do castelo

Tem dias que virar as costas e ir embora é a coisa mais difícil do mundo. Cada passo pra frente é uma pisada no pedaço de mim que acabou de cair e ainda assim preciso continuar caminhando. Seus olhos gritam um silêncio oco que não consegue chegar à boca e quando te vejo pegar o caderno e começar a escrever penso que bom, não precisa ser pra mim, mas só tira isso de dentro de você por favor.

Eu sei que parece errado, mas sei que o melhor nesse momento é ir embora. O negócio é que saber disso não faz com que seja nem um pouco mais fácil. Você que sempre acolheu partes de mim que eu nem sabia que carregava agora me olha com a dor da apunhalada que eu não dei e nem por isso deixou de doer.

Acabou que eu não consegui te tirar de mim mesmo quando te deixei pra trás. Não consigo me descolar, não é assim que funciono e eu estou exausta. Exausta de me dividir e te deixar achando que só tem metade quando na verdade a única pessoa que está ficando sem sou eu. Exausta de não conseguir ser suficiente e exausta de saber que não tem nada a ver com isso. Exausta de querer cuidar de todo mundo e equilibrar sozinha pratos que nem sempre são meus. Exausta de tanta turbulência emocional, de sentir tanto o tempo todo e tudo ao mesmo tempo e não conseguir mais nem pensar direito. Exausta de tentar ser quem eu acho que devo e exausta de me impedir de ser quem quero. Exausta. Estou exausta. E você também está exausto e é por isso que eu precisei vir embora.

Te vi levantando as muralhas que me são tão familiares e as minhas por ressonância se levantaram junto. Agora entendo também as janelas que já senti sendo fechadas na minha cara enquanto eu me encharcava na chuva do lado de fora porque se me deixassem entrar eu acabaria molhando a casa inteira e ninguém iria ter tempo pra limpar a bagunça. Entendo e mesmo assim não deixa de doer.

Você estende uma mão pra me puxar enquanto deixa a outra pronta pra me empurrar caso eu chegue perto demais. Conheço esse olhar. Conheço essa mágoa. Conheço essa solidão. Tento me aproximar e sou barrada, tento me afastar e sou puxada de volta pra vitrine onde posso ser vista de longe sem risco de te tocar.

Eu sei o que é o melhor a fazer. Posso estar errada, mas nesse momento eu sei. Tomo a decisão e me retiro da sua órbita sem realmente sair, só deixei de estar visível por um tempo. Chego na minha casa que já quase me é estranha pra fazer o que eu tinha que fazer e não consigo fazer nada. Tudo em mim virou você.

2 de janeiro de 2023

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pelo visto esse é o meu diário

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