127 | é meio que sobre isso que eu tô falando quando falo que tô sensível

Sobe desce sobe desce sobe desce o ar pelas narinas rápido acelerando cada vez mais rápido e eu não sei por quê. Esquerda cima baixo esquerda direita diagonal piscam os olhos de um lado pro outro no escuro total. As mãos trêmulas querem te segurar com força e te deixam escapar por entre os dedos frouxos. Ué, que que tá acontecendo?

— Ei.

— Oi.

— Eu tô nervosa.

— Por que?

— Não sei, mas achei que você devesse saber.

Mais cedo — foi hoje ou ontem? — você colocou a mão acima do meu joelho, não encostando, só perto, talvez pouco menos de um dedo de distância, e foi como se todos os meus circuitos elétricos se acendessem. Sabe aqueles negócios redondos que eram tipo um abajur com raios saindo do centro e se espalhando até a borda e quando encostava na superfície todos eles convergiam naquele ponto? Pois é. Eu me senti igual um negócio daqueles. E você nem tava encostando em mim.

— Tá ruim? — Seus olhos preocupados cravados nos meus arregalados.

— Não, não tá bom nem ruim, tá neutro, só tá muito intenso.

Você se afasta e eu continuo sentindo sua mão no meu joelho sem encostar no meu joelho. E continuo ligada. Ainda sinto a mão que saiu do meu ombro já deve fazer alguns minutos. Pisco. Respiro. Intenso. Seus olhos confusos nos meus olhos ainda arregalados.

— Você tá muito sensível mesmo né?

— Eu tô nervosa — volto pra esse momento e voltando pra ele volto pro joelho e pro ombro e pro toque dos dedos que nem chegam a tocar. Com as emoções completamente chacoalhadas e os nervos à flor da pele meus olhos piscam no escuro.

— Por que você tá sorrindo? — Você me perguntou mais cedo e essa tenho certeza que foi hoje. Seu rosto triste, meu rosto sorriso. Não sei porque eu tô sorrindo. Dou várias respostas uma depois da outra, todas elas mentira e todas elas verdade, termino falando que não sei porque eu tô sorrindo e tento terminar então eu mesma o tal do sorriso, brigamos feio eu e ele no meu rosto. Invoquei os poderes da sobrancelha e depois de muito esforço ela o fez recuar, pelo menos por um pouco. Seu rosto triste, meu rosto triste. Sento em cima do sorriso na tentativa de o manter deitado, mas ele é forte e eu sedentária, quase que caio pro lado.

Tenho procurado por aqui qual exatamente é a minha vulnerabilidade, onde ela mora e como ela funciona. Quem sou eu do avesso? O que fica à mostra, o que machuca e o que faz bem? O que é, pra mim, ser frágil? O que sou eu no meu estado natural? Falei que iria deixar minha armadura no ano passado e parece que venho retirando pedaços dela, sinto a pele respirar e sinto a pele arder. Sinto a pele antes de sentir na pele.

Nunca consegui vestir roupas que pinicam e minha mãe sofreu com isso na minha mão quando eu era pequena. Eu não queria saber, eu abria o berreiro, tudo menos tecido piniquento. Recuo ao toque inesperado, recuo ao toque desnecessário, recuo ao toque. Ou nele me derreto.

Mais cedo entre o ombro e o joelho me senti eletrizada dos pés à cabeça e assim fiquei ainda por um tempo. Correntes azuis passam por mim e me dão choque, ouço ruído sem estar ouvindo nada. Me sinto chiada e feito chaleira fechada me preparo pro grito.

— Ainda bem que você gosta de mim.

— Por que?

— Por que eu sou muito estranha — não sei se estou rindo de chorar ou chorando de rir ou uma união das duas coisas em uma emoção própria que talvez até já tenha um nome, mas eu não sei e se não tiver vou ter que inventar.

Na primeira vez que a gente se conheceu eu nem me lembro de você, mas você me sentia dar choque. Naquele outro dia no sofá à meia luz raios dispararam entre nós e me acordaram, ri sozinha por horas.

— Tô daquele jeito, bateu o acúmulo e agora eu tô me sentindo muito carregado — Você respondeu quando te perguntei o que foi pouco antes de agora, entre o banho e o escuro.

— Eu tô nervosa—eu não repeti, apesar de depois você me perguntar o que foi e eu falar que ainda estava nervosa, e mais depois ainda você me perguntou se eu ainda estava nervosa e eu falei que sim que eu ainda estava enquanto saia junto uma risada bizarra, mas essa no caso é mais uma vez aquela primeira fala que ficou registrada aqui dentro e insiste em ficar se reprisando por algum motivo, talvez porque tudo isso que eu tô falando eu tô falando é justamente por causa dela, ou ela que é por causa de tudo isso… Enfim.

— Por que?

— Não sei, só achei que você devesse saber.

9 de janeiro de 2023

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pelo visto esse é o meu diário

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