128 | nesse chão tem mais raíz que eu poderia imaginar

Cá estou eu sentindo o apartamento vazio, o que ele realmente está se você não levar em conta eu e nem os três gatos que estamos aqui dentro, mas também não sei porque você nos nos levaria em conta considerando que entre nós quatro acabamos preenchendo até que um tantinho considerável desse pequeno-pra-três-bom-pra-dois-enorme-pra-um espaço.

Relâmpagos iluminam o céu lá fora desacompanhados de seus trovões assim como eu relampago aqui dentro em silêncio. Vez ou outra dou uma risada em voz alta e me espanto com o volume da minha própria voz. Vez ou outra faço um comentário em voz alta e me pergunto com quem falo dessa vez. Vez ou outra sinto meus olhos encherem de lágrimas que no meio do caminho desistem de escorrer.

Não sei se é melhor primeiro tomar banho ou arrumar algo pra comer. No meio do dilema senti o vazio da casa e resolvi vir aqui escrever, mas agora cheguei nesse beco sem saída e acho que escolho primeiro tomar banho pra depois já limpinha comer. Será que quando eu sair do banho já vai estar chovendo? Tomara que nessa noite chova.

Sonhei que eu estava fugindo mais uma vez assim como sempre. Não lembro de quem e nem por que e no final das contas nunca importa, o que importa é que eu sonhei que corria e acordei cansada, mas acordei cedo e acordei acompanhada e logo esqueci do sonho que me fez acordar levemente afobada. Mas agora estou sozinha em casa e a casa vazia me encara de volta nesse enorme-pra-um espaço e nesse momento em particular eu vou desconsiderar os gatos — eles estão cada qual em seu canto dormindo há horas.

Pois acabou que comi primeiro e tomei banho depois, e nesse banho continuei escrevendo na minha cabeça. Fui pra uma direção que nem eu esperava, mas que pensando bem me parecena verdade até bem óbvia.

No banho pensei que daqui há 3 meses vai fazer dez anos que cheguei aqui. Moramos pai, mãe e filha, depois mãe e filha e depois filha. Dessa vez foram os pais que se mudaram e mesmo já fazendo quatro anos que sobrei só eu ainda não sei se sinto que essa é a minha casa.

Nunca me imaginei ficando tanto tempo no mesmo lugar, eu que sempre falei querer viver a vida me mudando de um lugar pro outro e ainda assim por tanto tempo aqui fiquei.

Esse apartamento que viu três amores chegarem e um deles ir embora. Que me viu puxar conversas difíceis, que me viu chorar sozinha na minha cama, que me viu aprender a cozinhar, que me viu virar vegana, que me viu decidir meu curso, ralar pra entrar no tal do curso, atravessar o curso um semestre de cada vez, me formar, trabalhar na minha área, entrar em crise e mudar totalmente de direção.

Ah, as crises… Esse apartamento viu tanta crise e todas elas iguais, todas elas a mesma só que diferentes. Ele me viu gritar de raiva e de dor, me viu gargalhar até cair no chão, me viu cair no chão e derrubar coisas no chão e me bater em tanta quina que não sei como não as arredondei com tanto impacto até hoje.

Ele que viu dois bichinhos morrerem, sete chegarem e quatro irem embora até que sobraram os três que dormem aqui perto de mim nesse momento.

Ele que tem as paredes que precisam urgentemente de uma pintura cobertas com as decorações que eu escolhi misturadas com as que sobraram da minha mãe, que tem o chão branco que eu odeio e que faz barulho demais pra vizinha debaixo, que já teve todos os móveis reorganizados de todos os jeitos possíveis até que agora tem sofá no quarto e cama na sala, que tem a telinha dos gatos pintada aleatoriamente de azul porque num belo dia eu quis me sentir menos separada do céu.

O apartamento que me viu virar adulta pra depois virar criança de novo, que por dois anos foi o meu mundo inteiro e agora de tão grande que é só pra mim me parece pequeno.

Ele que foi o primeiro espaço que compartilhei com alguém que escolhi a dedo — mais especificamente o dedinho do pé — e que foi o nosso ninho pelos quatro anos que fomos nós e que agora tenta nos ejetar pro mundo pra ver se a gente vai conseguir voar.

Esse apartamento que é nosso e que é meu e que na verdade é dos gatos porque são eles que mandam em tudo por aqui, que viu tantos amigos chegarem e irem e chegarem de novo, que ouviu os filhos da vizinha nascerem e crescerem, que me viu acordar de tantos pesadelos e me embalou em tantos cochilos acidentais fora de hora.

Nesse apartamento que nessa noite é meu e dos três gatos olho pro céu e espero a chuva que não sei mais se vai chegar, mas que eu queria que viesse e trouxesse com ela os raios que, assim como os que quebram a torre na carta do tarot pendurada na parede, vão iluminar tudo aquilo se permitiu virar escuro.

Hoje, com a companhia dos gatos, penso sobre esse apartamento que é meu, mas não é meu e que nesses quase dez anos é o recorde do maior tempo que eu já permaneci no mesmo lugar.

Ainda não sei como eu me sinto a respeito de tudo isso.

10 de janeiro de 2023

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pelo visto esse é o meu diário

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