13 — aquilo que carregamos

Crescemos com algumas coisas que continuam a crescer em nós. Pois se pudermos escolher, enchamos nossas bagagens de livros.

Me lembro de uma infância vivida através da leitura, deitada de barriga para baixo no chão gelado em dias quentes, até que doessem as costelas e os cotovelos; debaixo das cobertas segurando uma xícara de chá em dias frios, até esquecer do chá e tomá-lo já gelado; girando furiosamente numa poltrona giratória ou me impulsionando para cima em uma rede nos dias amenos, e desses jeitos eu poderia continuar para sempre até ser interrompida ou acabar o livro e lá continuar paralisada processando tudo o que tinha acabado de viver enquanto as lágrimas secavam na pele.

Não lembro de ver meus pais lendo quando era pequena, mas lembro que eu e minha irmã sempre fomos estimuladas e incentivadas a isso. Lembro de ouvir de meu pai "se depender de mim, nunca vai te faltar dinheiro para livro" toda vez que eu pedia um de presente, e do quanto ele ficava feliz ao me ver voltando de sacola cheia da livraria. Lembro de contar para minha mãe página por página do que eu tinha acabado de ler. Lembro de começar todas as sagas que minha irmã acompanhava e ter uma satisfação enorme quando eu a alcançava antes dela terminar.

Eu participava de uma assinatura mensal de livros, mas tive que interromper. Minha irmã começou a participar dessa mesma assinatura de tanto eu falar. Minha mãe, visitando minha irmã, começou a ler os livros que ela recebia e de tanto a visitar já lê os que chegam antes dela. Quando foi me visitar, ela leu uns meus por lá e pegou mais um para viagem. Eu visitei minha mãe e saí de lá com dois dela na mochila. Quando chegamos na minha irmã, a primeira coisa que meu sobrinho fez foi mostrar a mim e minha mãe os livrinhos novos que chegaram na sua assinatura infantil. Eu ontem li bastante durante o dia enquanto ele brincava com minha mãe. Hoje ele quis ler o mesmo livro de novo e de novo. Nessa noite depois que ele dormiu, minha irmã veio trabalhar no quarto de visitas, eu sentei na cama atrás dela e comecei o segundo dos que peguei com minha mãe, que sentou perto de mim e continuou o que pegou comigo, e quando terminou o que fazia minha irmã aproveitou para continuar o que ela começou nesse mês. Ficamos as três no mesmo cômodo desfrutando do silêncio mais rico de palavras de todos, aquele da leitura compartilhada.

Ler é um ato solitário
dentro de um movimento coletivo.

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pelo visto esse é o meu diário

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