134 | quatro meses disso aqui

Ando pensando que talvez eu tenha me perdido do propósito original disso tudo, que em algum lugar ao longo do caminho me enrolei demais nas minhas coisas e sangrei por cima da mesa. Observo as gotas reluzindo vermelhas por cima do mármore e a poça que se formou no chão e me pergunto como foi que cheguei aqui.

Já fazem quatro meses que escrevo todos os dias e nem lembro mais de como era a vida antes. Pra onde ia tudo isso? Quatro meses dos doze que — num impulso — me propus a estar aqui e me pergunto se ainda faz sentido, mas agora é tarde demais. Já foi tarde demais quando a ideia saiu da minha boca pela primeira vez e agora só não é mais possível voltar atrás.

Ué, mari, é só parar de escrever, mudar a rota. Não. Não é. Não dá. Eu falei que faria e agora não existe mais volta atrás. Doze meses vão ter que se passar e tudo o que eu posso fazer é isso que faço aqui nesse momento: pensar sobre. Não me leve a mal, eu não me arrependo de forma alguma e também não quero parar porque afinal me treinei a amar estar aqui. Só me pergunto mesmo porque afinal de contas é isso o que eu faço.

Faz sentido pra mim estar aqui e quanto mais eu penso sobre mais me encho de sentido pra estar aqui, mas me pergunto se faz sentido pra vocês e me pergunto também se precisa fazer sentido pra vocês já que faço isso por mim.

Esse se tornou o meu diário e meu álbum de fotos por onde posso voltar depois e relembrar de todos os lugares por onde passei e sinto inclusive que todo esse processo tem reconfigurado a forma como meu cérebro armazena memórias ou algo do tipo, não sei exatamente o que mudou, mas sinto que algo está mudando aqui dentro em um nível que ainda não consigo compreender, mas talvez em alguns meses já se torne mais palpável.

Já me enxergo diferente também por saber que sou capaz de fazer qualquer coisa que eu me proponha a fazer, me orgulho disso ao mesmo tempo que me pergunto se eu não estou desperdiçando esse comprometimento com algo que poderia ser mais bem aproveitado se fizesse de outra forma, mas que outra forma?

Tenho medo de ter ficado emocional demais de um jeito desnecessário, mas minha forma de experienciar a vida é através das minhas emoções e, se eu tirar isso, talvez tenham dias em que eu não tenha nada pra falar. Tenho medo de estar só tagarelando tagarelices que não servem a propósito nenhum e percebi que esse talvez seja o máximo que já me expus na internet na minha vida inteira, mas me sinto segura aqui — será que eu deveria? — e também acho minha proposta com isso tudo seja justamente colocar à mostra tudo o que eu normalmente esconderia.

Me pergunto se eu deveria me ater a um formato, se eu deveria ter um ponto de vista mais definido, se eu deveria misturar mais ou menos as coisas, se eu estou sendo ridícula, se estou sendo teimosa, se estou sendo inútil, se estou sendo… O que mais eu posso me perguntar? Onde mais eu posso estar errando?

Talvez essa tenha sido a forma que eu encontrei de sentir que tenho algum controle sobre mim e sobre a minha vida, talvez esse tenha sido um refúgio que precisei criar pra ter um lugar só meu quando na vida cada vez mais tenho meu espaço compartilhado, talvez esse seja meu jeito de dar sentido à realidade já que quanto mais o tempo se passa menos ela faz sentido, talvez esse seja o meu jeitinho de compartilhar a minha experiência pela vida porque cada pessoa tem uma forma própria de vivenciar tudo isso e essa é a magia da coisa. Talvez eu esteja encontrando problemas onde não tem, talvez eu esteja não vendo problemas onde na verdade deveria, talvez eu esteja me questionando demais, talvez eu esteja me questionando de menos, talvez…

Não sei, não tenho respostas, hoje são só perguntas que tenho mesmo. O que eu sei é que eu disse que estaria aqui e então cá estou da melhor forma que tenho podido estar. Penso em várias coisas. Penso, penso penso. Acho que já deu minha hora de dormir.

Fui dormir e continuei pensando, então voltei.

Me pergunto se existe algum valor nisso aqui além do valor pessoal que tem pra mim e me pergunto se precisa ter algum valor pra além do valor pessoal, se só ele já não se basta já que, pra mim, é ele a origem de qualquer coisa que valha a pena.

Tenho um negócio muito meu de ver o processo já como um resultado por si só e o produto final apenas como um marcador de tudo o que foi preciso fazer pra chegar ali, então acho que é por isso que faz sentido pra mim compartilhar todas essas incertezas, tropeços e inseguranças do caminho porque eu realmente não sei pra onde estou indo, mas sei que se eu continuar caminhando vou passar por vários lugares incríveis e talvez em algum momento resolva me demorar mais em algum, mas não sei se tenho um destino, só estou passeando porque eu gosto de passear e apontando para as coisas que vejo e sinto e penso e que talvez sejam interessantes ou talvez não, mas grande parte do que eu faço é notar tudo aquilo que tende a passar despercebido.

Não, eu não faço a menor ideia do que eu estou fazendo, mas estou fazendo mesmo sabendo que não faço a menor ideia do que estou fazendo e só isso já é grandes coisas considerando que costumo empacar muito antes por muito menos.

Talvez esse seja um grande desperdício do texto do dia já que eu poderia encontrar várias outras coisas muito mais interessantes pra falar, mas não colocar aqui também o que me custa não me parece certo, e nesse momento, como em vários outros, estar aqui me custa um pouco de paz de espírito [e horas de sono].

Sempre tive dificuldade em fazer as coisas do jeito que elas são feitas porque geralmente o jeito como as coisas são feitas não faz sentido pra mim. Sempre precisei fazer tudo do meu jeito e essa talvez seja a coisa mais eu-do-meu-jeito que eu já tenha feito na minha vida, e se for inútil talvez seja até melhor ainda.

16 de janeiro de 2023

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pelo visto esse é o meu diário

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