136 | algum ritmo em comum

As sobrancelhas que se franzem de um jeito específico quando a mente se ocupa de pensar pensamentos e de outro jeito quando o corpo se ocupa de sentir sensações. A mecha de cabelos que insiste em cair na frente do rosto quando a cabeça se abaixa. Os olhos que olham pro além enquanto olham pra dentro e, quando encontram o que procuravam, se voltam direto aos meus penetrando a minha alma com a ponta mais sem ponta que já senti me perfurar.

Pra onde as palavras se levam uma após a outra quando as deixamos brincar? Há tanto nesse silêncio que não ouso o perturbar. Prendo meus olhos no que me fala e vejo o que não foi meu pra ver. Minha vivência é limitada, mas quando absorvo o que escolhe compartilhar comigo e tudo aquilo que vem junto — inclusive o que não se mostra — aumento um pouco mais esse mundinho pequeno e restrito no qual habito.

A atenção que dou aqui e que aqui recebo não encontro muito por aí afora. Na busca por silêncio me encontro muitas vezes só e na companhia também. Por que me perguntam coisas que não se dão ao trabalho de me ouvir responder? Depois saio por calada.

Me percebo afobar quando preciso falar alguma coisa, como se o tempo fosse curto e eu precisasse fazer o que preciso fazer o mais rápido possível pra depois dar o fora, mas quando tomo meu tempo para contar uma história ela encontra seu fim muito antes até de chegar ao meio. Talvez por isso eu goste tanto de escrever, pelo menos aqui ninguém invade o meu silêncio.

Talvez seja problema de oratória por não conseguir prender a atenção do meu público, mas não gosto de pássaros em jaulas e muito menos de interesse industrializado.

Vejo pessoas como vejo o céu, como vejo as folhas que se balançam ao vento e como acompanho as formigas seguindo seus caminhos até que eu as perca de vista: sem pressa pra acabar. Não tenho o desejo de interferir na natureza e muito menos na sua linha de raciocínio, por mais aleatória que ela possa parecer. Me conte uma história, pense seus pensamentos em silêncio, exista como, nesse momento, te faça sentido existir.

Assisto a vida real como assisto as séries que por tanto tempo me refugiaram de mim, passivamente e por horas a fio. Meus olhos treinados pelo cinema observam os mínimos detalhes dos olhos que passeiam em busca das palavras certas e aguardam porque entendem que o tempo de respiro faz parte do diálogo tanto quanto aquilo que é falado, geralmente até mais.

É tudo questão de ritmo e filmes de ação americanos tendem a desgastar minha atenção mais alinhada ao cinema europeu, tão lento que pra muita gente é chato, mas que pra mim é o que permite o tempo de saborear cada textura das palavras em todas as camadas que elas podem habitar.

Foi nesse respiro que você me conquistou, no silêncio não preenchido da mesa da cozinha, no olhar paciente da varanda, no toque sem pressa na cama, no convite a me estender tanto que fico até sem saber o que fazer e na presença que não se cansa de se fazer presente.

18 de janeiro de 2023

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pelo visto esse é o meu diário

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