138 | Poseidon em fúria

Sempre achei que todo mundo chegasse em casa e chorasse como eu, que quando as portas se fechassem e as luzes se apagassem os soluços irrompessem pela noite e preenchessem o silêncio com toda a dor guardada dentro esperando apenas por esse momento.

Sempre achei que eu fosse fraca. Fraca por nem sempre conseguir guardar até a hora de chegar em casa, por nem sempre esperar a madrugada, por nem sempre aguentar até não ter ninguém por perto e por me deixar vazar de mim enquanto ainda é dia e a luz pode tocar.

Mas nem todo mundo chora, muito menos quando fica sozinho em casa.

A muralha chega até meu rosto como represa porque sabe que não é uma lágrima ou outra que vai transbordar, não, não são lágrimas de água doce que escorrem pelo meu rosto, não são nem lágrimas de praia, são ondas gigantes de tempestade em alto-mar.

Não sou boa em lidar com as minhas próprias crises à toa, tive que aprender na marra depois de tanto me afogar bebendo água salgada que quando se vê as nuvens se formando ao longe o melhor é preparar o navio para o pior. No mínimo foi treinamento, e treinamento nunca é desperdício de tempo.

O grito que ontem entalou na garganta hoje sai rasgando até me ensurdecer e fazer rachar a parede sólida que vez e vez de novo contruo para me proteger. Firmo os pés no chão e os olhos no espelho e assisto o tsunami se aproximar, agora não tem mais nada a fazer, só deixar que chegue e me arraste para o fundo, sacudindo, rodando e me chocando contra destroços de naufrágios passados. Partes de mim são arrancadas pelo impacto e se tornam elas também passado.

Não sou o oceano e muito menos sou as ondas, sou a parede de pedra na qual elas continuam a bater dia e noite até que furo de dentro para fora. A lua controla as marés e quando ela passa por mim sinto na pele o estouro cada vez mais forte de uma onda atrás da outra até que eu não aguente mais e ainda assim elas continuam uma depois da outra e todas ao mesmo tempo até o sol nascer de novo e a água turbulenta se faça mais calma.

O que sempre vi como fraqueza hoje sei que é sobrevivência e aprendi só mais recentemente a ver como beleza. A erosão retira de mim camadas de pele morta e as lascas que caem me lapidam feito escultura.

20 de janeiro de 2023

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pelo visto esse é o meu diário

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