140 | a porta que não se atravessa, mas me atravessa

Fora de mim o tempo segue em linha reta, dia após dia, ano após ano, sempre em frente e sempre andando. Dentro de mim o tempo é uma porta que surge onde eu estiver e que tem vontade própria, às vezes ela se abre pro momento que quero enxergar, às vezes ela se tranca e não abre por nada e, quando quer tirar o chão sob meus pés — seu passatempo preferido — , ela se abre pra momentos aleatórios do passado ou de um futuro imaginado — porque se tem uma coisa que se precisa saber sobre ela, é que ela ama inventar história.

Mas essa não é uma porta que se atravessa, não, ela poderia até ser uma janela se não fosse o fato de que eu a enxergo como uma porta, e por mais que eu queira, deseje, necessite e que ela pareça se abrir pra mim de braços abertos, quando tento a atravessar meu corpo fica pra trás. O que ela faz, já que ela precisa fazer alguma coisa, é despejar em cima de mim tudo o que eu sinto do outro lado como se tivesse se aberto em uma nevasca. O vento gelado atravessa meus ossos e a neve cai por cima de mim, pouco importa se eu estiver torrando no sol num calor de 40 graus, vou bater os dentes de frio.

Não me lembro do que aconteceu, mas enxergo o banheiro branco com paredes de textura, o sol aparecendo pela pequena janela, o balcão recém limpo com as minhas maquiagens fora do lugar e os olhos borrados de preto que queriam mais do que tudo chorar, mas no lugar disso gritavam. Já vou. De onde vem essa voz que grita? Sei que ela sai de mim, mas não parece, assim como todo o resto que vejo no espelho. Exceto os olhos, nos olhos sempre me vejo.

Não lembro do que aconteceu, mas sinto. Na realidade talvez nem tivesse acontecido alguma coisa, nem sempre precisa acontecer pra ser real ou ser realidade pra acontecer, às vezes só se sente como se tivesse, e por isso foi, e por ter sido ainda é. A verdade é que viver doía e ainda dói. No corredor de azulejo azul todo mundo daquele pequeno círculo ria, menos eu. Se eu ousasse tentar rir ia chorar, então melhor fingir sorriso e me tornar invisível.

O problema de se fazer invisível é que ninguém te enxerga. Não importa o quão desesperados sejam seus acenos ou ensurdecedores os gritos, ao escondê-los por trás de um sorriso ninguém te enxerga. Então você para de sorrir, mas ainda não grita, não, você vai mais fundo ainda onde nem o sorriso consegue mais chegar, e lá no fundo tão fundo que parece nem ter fundo, você se torna tão pequena que desaparece até de si mesma.

Eis o espelho. Eis o banheiro. Preto no olho e vermelho na mão. Batom de escrever xingamento na pele, mas só antes do banho. Uma vez foi passear por baixo da blusa, nosso segredo, meu e da voz constante no ouvido. Quase não quis esconder mais, de tanto se importar deixou de se importar e agora nada mais importa. Tirando o pequeno fato de que tudo importa, e muito.

Tem vezes que a memória começa a se abrir pro mesmo lugar como se fosse sonho recorrente que se sonha durante o dia, só que pior do que acordar no meio da noite de um pesadelo é acordar de pesadelo e perceber que já estava acordada, e não pior nem melhor, mas estranho, é acordar e perceber que nem se sabe se o que lembrou foi mesmo um pesadelo. Parece que deveria ser, era pra ser, mas meio que parece que não foi nada e meio que dá vontade de dar risada. Uma risada meio sarcástica como a que riam os olhos borrados de preto no espelho.

A porta que se abre pra um lugar tão longe de mim que nem parece que um dia estive ali, não fosse pelas marcas que carrego comigo poderia achar que fossem cenas que assisti em algum lugar por aí. Ela se abre e logo depois se fecha e some, mas deixa no chão toda a neve que com o vento passou pra esse lado e derrete feito poça molhando meus pés quentinhos de gelado. Uma poça fora de contexto, tão rasa que parece inofensiva, mas se não tiro os pés rápido logo afundo e me afogo de novo em tudo o que um dia já quase que me matou afogada.

22 de janeiro de 2023

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pelo visto esse é o meu diário

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