141 | torre

Gosto de andar descalça e perceber o mundo pelos pés, me sinto mais próxima da terra e mais livre dentro de mim. Calçados prendem e meias sufocam, mas descalços pés sentem o que sentem.

Seja o tapete fofo ou o asfalto quente, o tato foi feito pra sentir e não só gostoso. O piso gelado que refresca o corpo num dia quente ou que dá arrepio de frio num dia que já é frio. O chão é real, o chão não mente, o chão é seguro. De meia macia não se incomoda com a sujeira no chão, mas a sujeira não deixa de estar lá, ela inclusive suja também a meia, é o incômodo me faz querer limpar.

Andar tanto descalça cria crosta no pé, mas eu lixei e amaciei a pele até o chão machucar de pisar e agora reflito sobre a vida.

Também me empolguei na espontaneidade e numa dança desajeitada pulei e fiz crec no tornozelo que até agora dói. A oferta da massagem que nunca aconteceu não fez massagem no pé, mas massageou o coração que precisava muito mais.

Me sinto querendo ocupar espaço pela primeira vez na vida e falei não só pelos cotovelos, mas também pelos joelhos. Me sinto não só querendo ocupar espaço, mas mais importante ainda, estou aprendendo que posso ocupar o espaço que tanto preciso.

O corpo que muda de forma quando entra na roupa nova, se ergue diferente, se move diferente, se sente diferente. Te desejo mais roupas que façam seu corpo tão bem quanto parece.

Me sinto feliz, absurda e absolutamente feliz. Ainda assim muito dói e não pareço conseguir parar de chorar. Também choro de delícia, de amor e de carinho. Também choro de exaustão.

Tá tudo bem? Quero falar que sim como sempre, mas é difícil mudar padrão e entre o sim e o que quer que seja sai um barulho estranho. O que foi? Pode falar com a gente. Abro a boca e nada sai. Esse parece estar se tornando o novo padrão. Aos poucos começa a sair e me surpreendo mais uma vez com a atenção, o amor e o cuidado que recebo.

É difícil mudar padrão e tem sido difícil lidar com tanta coisa. Mas aqui não é difícil ser.

É difícil criar coragem pra sair de casa. Percebi na hora que falei. Olho pra você e pro seu quarto no qual estou em pé parada olhando pra você.

O convite pro que eu sei que vai ser bom e eu quero muito ir, mas não pareço conseguir. Consegui e fui e cheguei e foi bom e ainda bem que eu vim.

Um jantar em silêncio, um olhar de compreensão, uma mão estendida, uma pergunta, uma escuta atenta, dois cristais entregues em silêncio em menos de uma hora.

Uma nova vida me acena pronta pra me receber.

Momentos de transição são estranhos e são uma merda, mas momentos estranhos e merda fazem parte. Sim, eu estou feliz. Não, eu não estou bem. Hoje foi um dia muito bom.

23 de janeiro de 2023

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pelo visto esse é o meu diário

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