142 | enquanto a vela queima

Quando o corpo pesa mais do que pesa e a cabeça chega pende pra trás, o melhor a fazer é permanecer deitada. Afobada tagarelo sem pensar, quero que algo aconteça. Será que ainda sabe que cor tem os meus olhos? Será que ainda quer saber?

Enquanto todo mundo ao meu redor parece estar tendo dificuldade de sair da frente das telas, eu não mais consigo permanecer na sua presença. Penso no que fazer e por não fazer a menor ideia do que fazer acendo uma vela. O fogo tem feito falta e olhando pra chama me lembro das tantas noites em que ele me fez companhia.

O calor nas palmas ressecadas aquece mais do que as mãos, me aquece a alma. De mente vazia assisto a vela queimar um milímetro por vez e me sinto sozinha dentro da mesma solidão que me acompanha desde pequena. Ninguém aguenta observar uma vela em silêncio por o quê, uma hora? Ninguém aguenta. Ninguém aguenta passar uma tarde inteira boiando na piscina. Ninguém aguenta deitar no chão e passar horas olhando pro céu. Tenho mesmo um bom tanto de passividade dentro de mim, mas que posso fazer quando parece que meu corpo foi construído pra contemplar. Essa solidão em particular me é tão familiar que dentro dela não me sinto só, me sinto tudo. E em silêncio ela me acompanha.

Enquanto isso sentimentos explodem pra fora de cada poro e choro. É só pensar em chorar que choro. É só respirar. Enquanto assisto o fogo não choro, o fogo me faz sorrir. Quero que algo aconteça porque me sinto morrendo por dentro uma morte que já me senti morrer, mas por já ter sentido sei que justamente o que preciso é deixar que morra e sentir tudo desse jeito, tudo de uma vez, me inundando e me afogando até que um dia acordo e não morro mais.

Meses atrás falei estar gestando uma nova eu e parece que a cada dia que passa me aproximo mais do meu renascimento. Sou eu parindo e sou eu nascendo. Como uma lagosta, cresci demais pra casca que carrego e agora ela me aperta, me machuca, entra na pele e pesa, mas a construí tão robusta que agora peno pra quebrar. Estou cansada de forçar, mas quando paro por um segundo e descanso me sinto tão presa dentro dela que preciso continuar tentando. Pouco a pouco ela cede, quebra e pedaços caem, mas ainda falta um tanto. Pouco a pouco sinto o ar fresco que entra pelos buracos e eles me motivam a não parar por um segundo sequer.

Urano se agita dentro de mim querendo explodir tudo e me ver voando pelos ares enquanto Netuno segura sua mão e fazendo shhhh shh shh shh shhhhh. Me conheço demais pra me distrair de mim e essa talvez seja a minha maior frustração.

24 de janeiro de 2023

--

--

pelo visto esse é o meu diário

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store