144 | e quando vimos já somos um negócio

aérea
3 min readJan 28, 2023

Entro no seu quarto e largo a minha garrafa d'água na mesinha de cabeceira que já é a minha. Largo a mochila e as bolsas cheias de roupa no canto que já virou o canto da mochila e das bolsas e olho pro travesseiro que já virou meu no meu lado da cama que é sua. Acordamos e eu desço pra buscar as frutas na geladeira e o café nas xícaras de sempre. No caminho converso com a família que já nem se surpreende em me ver por ali. A gata me enxerga, mia um grito de bom-dia e me segue de volta até o quarto onde deita no seu lugar de sempre e onde eu sempre acidentalmente eventualmente acabo esbarrando sem querer.

Mas essa manhã foi um pouco diferente. Você tinha aula pra dar logo cedo e teve que sair correndo porque como sempre a gente foi dormir mais tarde do que devia e acordou mais tarde do que previa. Pego meu livro, a xícara da mulher maravilha que já virou minha e vou ler na mesa lá fora pegando uma brisa gelada do dia chuvoso e nublado delicioso do jeitinho que a gente gosta até você voltar com sorriso no rosto e dor nas costas.

A gente ri muito junto, né? Sim, isso foi o que chamou atenção desde os primeiros dias. Sentados na rede da varanda penso que se passou um mês desde aqueles dias que passamos sentados na rede da varanda ali no natal. Aqueles dias isolados que passamos só nós nesse quarto, você com covid e eu aparentemente não. Aqueles dias que foram uma vida inteira e que desde eles já se passaram vidas inteiras ao mesmo tempo que foram ontem. Minha linha do tempo agora é percebida diferente e a sua também por andar lado a lado com a minha.

Sentados na rede da varanda em silêncio penso no mês que se passou e vejo pelo milésimo de movimento que seu rosto faz pra esquerda que você está muito longe daqui. Sentados na cama iluminados pela luz âmbar que fui comprar pra você tagarelo sobre alguma coisa e percebo pelo seu olhar que viu um mosquito. Viu um mosquito? Você sabe o meu rosto de mosquito. Eu sei o seu rosto de mosquito. Você sabe dos meus rostos mais do que eu. A gente também se enxerga muito, né? É.

Ou, diminui esse foco só um pouquinho, por favor. Meus olhos feito laser focados em você desviam pela primeira vez em sei lá quando tempo e… É, foi mal, eu tava muito intensa aqui mesmo, né? Agora não sei mais qual o nível de intensidade normal do meu olhar e nesse jogo de autoconsciência às vezes a gente leva uma bolada na cara.

Falo sobre ter a minha mesinha e o meu lado da cama na sua cama e você fala que pois é vei… Às vezes eu penso nisso também e é muito louco porque… Concordo, realmente é um misto de fofura com desespero com aceitação em só deixar as coisas acontecerem. É assim que a gente brinca e a nostalgia já bate na minha porta.

26 de janeiro de 2023

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