149 | perdi o vôo e meu último fiapo de resistência ao colapso

aérea
5 min readFeb 2, 2023

Meu mundo se abriu no meio e eu já sabia ter caído pela fenda, mas pelo visto ela é mais funda do que na minha ingenuidade pensei. Caio e não paro de cair, às vezes penso estar voando até me bater em uma pedra saliente e quebrar uma das pernas, quem sabe uma costela. Fratura por fratura, não sei se é melhor ou pior elas estarem expostas.

De cabelo rosa e rímel azul no banco do meio do vôo arranjado na necessidade já que o planejado caiu pelo bolso que não percebi estar furado, choro copiosamente e imagino estar sendo o maior pesadelo do senhor de terno que trabalha no ipad ao meu lado. Ou talvez eu esteja apenas julgando injustamente uma pessoa que pode ter tanto ódio de terno quanto eu, só que ainda assim precisa vestir.

Talvez ele tenha acordado cedo e preparado o café da manhã para alguém, talvez tenha feito um elogio sincero e feito brotar um sorriso onde antes havia nenhum, ou talvez também é possível que tenha gritado com o cachorro.

Talvez ele esteja satisfeito com o cronograma que elabora com tanta atenção e talvez nem tenha notado a ameba caótica de cores e lágrimas ao seu lado, ou talvez ele esteja trabalhando na força do ódio porque tem um prazo a cumprir, mas pelo suspiro que acabou de dar sei que está cansado. Talvez esteja trabalhando no automático e seja indiferente ao cronograma que talvez esteja tendo mais importância pra mim do que pra ele, afinal, nem todo mundo tem uma relação intensamente binária de amor ou ódio com tudo o que faz. Tem gente que só faz o que precisa ser feito e ponto. Talvez faça o que é preciso por precisar. Talvez faça o que não precisa por não saber ter outra alternativa. Talvez esteja incomodado com meu cotovelo no seu cotovelo.

Já tem algumas horas que as lágrimas escorrem pelo meu rosto sem parar e não consigo encontrar onde é que fecha o registro, mas também confesso não procurei com muito afinco. O bom de viajar é a liberdade de ser quem se sente sendo naquele momento e tanto faz porque nada importa. Talvez eu vire uma anedota jogada em conversas como a menina que estava chorando no aeroporto sei lá porque, talvez algumas pessoas tentem adivinhar o motivo, talvez hajam teorias sendo feitas talvez pela moça de verde em silêncio do meu outro lado, porque eu peguei esse vôo de última hora e é claro que só tinha lugar livre no assento do meio.

Talvez ninguém tenha prestado atenção e nem se importado e sinceramente também não me importo com isso. Todo mundo parece estar cumprindo uma etiqueta silenciosa de fingir que não está vendo nada e por isso agradeço. Longe de mim querer explicar como me sinto quando a melhor explicação para o que eu sinto é que lágrimas precisam escorrer pelo meu rosto e é isso que eu deixo elas fazerem assim como deixo os gatos subirem em qualquer lugar que quiserem porque são gatos e não precisam se adequar às normas humanas às quais eu também queria não ter que me adequar. Também eu gostaria de subir nas mesas porque a vida vista de cima é mais legal. Também eu queria simplesmente chorar quando eu sinto vontade de chorar sem que isso se tornasse uma grande coisa. Tem vezes que é uma grande coisa mesmo, mas tem vezes que eu só quero chorar e porque sim é resposta que se baste.

Minha cabeça dói pela falta de sono, pela máscara no rosto, pelo excesso de choro e por qualquer outro motivo que a faça querer doer. Caindo, caindo, caindo pela fenda em meu mundo parece que a parte que bati na rocha foi dessa vez a nuca. Pisca, pisca, pisca a dor nas minhas têmporas enquanto a no centro da cabeça permanece fixa.

Não consigo não me misturar com o que me cerca e quanto mais misturada mais difícil é de encontrar as bordas, quem dirá então os limites. Te vejo em mim e me vejo em você e quando tudo o que mais preciso é dar dois passos pra trás me jogo pra frente. Caímos em nossas respectivas fendas que também misturam e eu sei. Eu sei. Eu entendo. Romântica incorrigível precisa abrir mão do conto de fadas e aprender a amar a realidade como ela é e fazer da realidade morada. Mas é tão difícil quando minha imaginação fértil insiste em me colocar em belíssimos castelos. De tanto me desconstruir me restei em ruínas e entre os destroços de tudo que aprendi a ser não pareço encontrar ponto firme pra me erguer de novo.

A vida tem sido cada vez mais emocionante e eu tenho sido cada vez mais emocionada, logo eu. Talvez fosse justamente por isso tanta frieza no final das contas. Talvez eu tenha me desfeito dela pra poder dar a ela o seu devido valor. Talvez eu esteja me deixando na mão.

Não aguento mais me abrir, mas algo me diz que o fim ainda está longe. Sei que é esse o momento disso, que é esse o fluxo das coisas e que nessa parte da minha existência a correnteza me puxa pro meio da tormenta, me afunda e me traz à superfície carregada por ondas gigantes que quebram umas nas outras em meio à tempestade. Meus músculos que doem só de tentar me manter viva pendem ao meu lado sem conseguir me levar a lugar algum.

Me jorro tanto pra fora que não sobra nada por dentro que me faria adoecer, mas também não sobra nada de mim por dentro. Me esvazio e da mesma forma que copo vazio na mesa de bar não permanece muito tempo vazio logo me encho daquilo que reluz.

Tem vezes que me sinto tão viva que me convenço a morrer por dentro. Tem vezes que me sinto tão morta que me agarro a todo resquício de vida que tenho a sorte de tocar. Poucas coisas me dão mais satisfação do que fechar os olhos e sentir o impacto das rodas do avião tocando no chão.

Sei que sou dramática, cresci ouvindo isso. Sei que exagero o que falo, que aumento, que encorpo, que transbordo, mas também quem foi que disse que a forma como eu falo sobre o que eu sinto não é a maneira mais exata que encontrei de traduzir os meus sentimentos em palavras? Talvez eu não aumente o que eu sinto quando falo, talvez eu esteja na verdade diminuindo pra fazer tudo isso que eu sinto caber em algum lugar, já que dentro de mim claramente já não cabe mais.

Tenho fome, mas sinto a fome como um estado que só é, não necessariamente relacionado com a necessidade de comer, talvez eu devesse. Como algumas coisinhas pra dizer que comi e deixo o buraco dentro de mim em paz.

Um cochilo no avião era tudo o que eu precisava. Entre uma dor no pescoço e outra, abro a janela e me deparo com azul. E branco. E mais azul. O infinito me sorri e num dia turbulento me faz também sorrir, assim como o comissário de bordo mais simpático que já vi na vida e que me lembrou das duas pessoas extraordinariamente gentis que deixei em casa.

O mar me conta um segredo.

Esse vai ficar só entre nós.

31 de janeiro de 2023

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