154 | mari sendo mari

mari
3 min readFeb 6, 2023

Orbitando em volta da família sentada à mesa percebo que foi exatamente assim que sempre existi: orbitando. Como se o envolvimento direto me fosse muito custoso e habitar nos arredores me desse mais oxigênio para respirar. Como se não, é isso mesmo no final das contas. Passando tempo com essas pessoas que me botaram no mundo e me viram crescer percebo agora como passei muito tempo longe da família e o quanto isso impactou na minha percepção de mim.

Em vários sentidos me tornei quem eu sempre deveria ter sido, mas em outros deixei de ser a pessoa que sempre fui. Me moldei em outros moldes, muitos deles os que eu mesma esculpi e dos quais me orgulho, feitos de material não muito durável para que, assim como minha cor de cabelo, se desmanchem o suficiente para que eu possa assumir outra forma depois de certo tempo. A renovação constante é talvez o meu traço mais permanente e sem ele permaneço constante, tal qual um tubarão que só consegue respirar em movimento, parada me afogo no excesso de mim.

Todos jogavam baralho na mesa envolvidos no jogo enquanto eu fazia tererê e pipoca para nós, dançava, cantarolava, treinava paradas de mão, malabarismos e várias outras aleatoriedades tão minúsculas que nem chegam a caber em uma categoria de atividades, mas que geralmente são descritas como mari sendo mari.

É preciso muito para que eu consiga ficar entediada porque entre as músicas que tocam sem parar dentro da minha cabeça, os pensamentos que correm em alta velocidade, o corpo que gosta de se mover sem sentido e os olhos capazes de se fixar em qualquer coisa com o máximo de atenção, simplesmente não chega até mim a necessidade de precisar encontrar algo para fazer.

Ser a caçula me dá esse benefício. Sempre fui a mais nova da família e ser a mais nova envolveu ter o tempo todo outras pessoas que me cuidassem. Toda a responsabilidade que foi depositada na minha irmã me permitiu a liberdade de ser sem grandes expectativas depositadas em cima de mim e meus ombros permaneceram leves o suficiente para que eu pudesse colocar minha mochilinha nos ombros e passear por aí, virar artista, fazer diferente, sei lá.

Vejo meus pais, ambos os filhos mais novos como eu, e que como eu foram os que foram mais longe, geograficamente falando. O padrão, quando chega até nós, já está tão diluido de tanto se reproduzir que conseguimos encontrar brechas com mais facilidade. Não tivemos outros menores que nós com quem se preocupar [pelo menos até certo ponto] e isso nos liberou tempo e disposição para buscar-nos em lugares até então não explorados. Os caminhos já foram traçados e assim podemos escolher seguir por eles ou encontrar [e inventar] outras possibilidades.

Tu tá parecendo uma fadinha. Olha, ela parece uma fadinha. Comenta minha irmã enquanto me observa flutuar pelo espaço dançando com as mãos uma música que toca apenas em minha mente. É verdade, penso sobre e percebo que nunca me importei de estar sendo diferente, a pressão em me adequar parece ter chegado depois e não sei dizer quando.

Preferindo brincar sozinha a brincar com outras crianças, eu inventava meus próprios universos dos quais só eu conhecia a existência e parte da graça estava em não entenderem o que eu fazia. Sentava sozinha fora da roda ou dentro dela me comportava de uma forma unicamente minha. Quando foi que comecei a me preocupar em não ser vista como uma interrogação? Quando foi que aprendi a fabricar sorrisos? Quando foi que aprendi a me fazer de folha em branco?

Ninguém que me conheceu quando criança estranha nenhum dos comportamentos que chamam atenção a qualquer outra pessoa que tenha me conhecido depois, os mesmos que eu aprendi a guardar dentro de uma caixinha debaixo da cama a ser aberta somente na segurança da minha própria presença. Será que foi Brasília que fez isso comigo ou será que esse é o curso normal da vida? Parece que a gente cresce a desaprende a se ser.

Tudo o que passei o último ano inteiro lutando desesperadamente para fazer sair de mim em um sussurro aqui sai antes mesmo que eu perceba. Não sei ainda muito bem o que fazer com tudo isso, apenas continuo observando atentamente enquanto ocupo o espaço que nasci para ocupar e me pergunto se quando eu voltar pra casa levarei essa mari no corpo ou na mala.

5 de fevereiro de 2023

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