165 | tudo é assunto quando a gente quer conversar

aérea
3 min readFeb 18, 2023

Cinco e cinquenta e três da manhã saindo da cidade eu e minha mãe rumo a mais uma viagem de carro.

O céu começa a se iluminar e resisto ao sono, quero ver o dia nascer. Que música eu ponho? Passeio pela playlist, pra gente acordar… Parece bom.

Corredores fechados em verde escuro começam a brilhar dourado.

Um lençol macio que cobre a terra só de manhã e num único ponto é puxado para cima em direção ao que não consigo ver, como um suspiro feito de névoa.

Olha lá! Vermelho incandescente gigante no horizonte, respira fundo e absorve. Numa curva o sol nascente se alinha perfeitamente com o túnel de árvores como se elas tivessem nascido ali só pra esse exato momento.

Escondida entre os galhos cravada na madeira uma placa que diz “LEIA! apocalipse”.

Ossos de mais de dez metros cravados no chão como fraturas expostas da terra querendo chegar aos céus.

Talvez se olhássemos menos para a luz e mais para o túnel veríamos a riqueza de texturas e cores que se escondem nas sombras.

Peraí, depois a gente conversa, essa paisagem merece ser apreciada em silêncio.

Vou dormir. Não consigo dormir. Esquece.

Para num posto, abastece, calibra o pneu, preciso fazer xixi, vamos ao banheiro, mulher passa rímel na frente do espelho. Que lindas as suas tatuagens, eu queria fazer pelo menos mais umas duas, mas meu marido não gosta. Faz, digo e me despeço. Voltamos ao carro e fechamos as portas em fúria e em fúria seguimos discutindo por pelo menos mais uma hora sobre a história que se repete da mulher que não faz o que quer porque o marido não gosta e como não é sobre ela e sim sobre todas nós e como cidades pequenas são uma merda.

Ô suas fugitivas! Diz minha irmã rindo num áudio. Me ligaram do posto, vocês saíram sem pagar. Nos olhamos mãe e filha e rimos. Rimos por horas. Falei que era minha mãe sim, que ela faz dessas às vezes, já paguei pra vocês. Ainda estamos as três rindo. É de família.

Mostro as músicas dos meus amores e as lágrimas não param de escorrer. Eu sempre choro, é normal. Choro de luto pelas ilusões assassinadas, pela lembrança ainda tão real das dores sentidas, de orgulho por as termos atravessado de mãos dadas e de um amor tão grande que nem cabe dentro de mim.

Lágrimas também sobem aos olhos pelos traumas compartilhados entre uma mãe e uma filha pelos primeiros sete meses de vida não conseguiram se entender. Você não era difícil, você só demandava muito da gente. Fico feliz da gente não ter te podado porque a gente podia ter, e hoje você estaria trabalhando bem e sendo elogiada como sempre foi pelos seus chefes porque você sempre vai ser dedicada e competente em qualquer coisa que fizer, e você estaria lá com um sorriso no rosto e vazia por dentro. Imagina que desperdício trancar toda essa criatividade e toda essa sensibilidade dentro de um escritório sem graça. Porque essa mari de cabelo rosa e tatuagens que canta e que dança e que chora e que escreve e que tira fotos já tava lá na marizinha, a gente só não conseguia ver ainda.

Na quase chegada depois de mais de doze horas sentadas no carro somos recebidas com o trânsito parado na cidade que se prepara pro carnaval.

Oito e cinquenta e quatro deitada na cama de pernas para cima cansada, dolorida e com calor.

Pra comer, um poke caprichado porque o feijão do posto tinha carne, então comi só arroz, batata e salada.

16 de fevereiro de 2023

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