166 | live together, die alone, right?

mari
3 min readFeb 18, 2023

Sentada na sala de espera vejo o tempo passar, mas não o sinto. Dentro de mim ele está parado. Contido dentro do nó em minha garganta cresce algo sem ter para onde ir. Denso. Cada vez mais denso. Lágrimas começam a querer escapar pelas brechas em meus olhos e por mais que eu tente as segurar, só tenho duas mãos e ambas estão ocupadas se segurando com força. Tá tudo sob controle. Repito a mim mesma. Sob controle. Sob controle. Tiro os olhos do ponto fixo na intersecção do rejunte dos azulejos da parede em minha frente e os coloco no teto. Tá sob controle.

Esse medo tão familiar é diferente do que bate à noite quando estou sozinha e sinto a pele descolar dos ossos, esse vem das entranhas cansadas de se retorcer em dor, tão cansadas que não tem mais força para fingir uma força que não tem. Fraca. Olho em volta e nos rostos que vejo me sinto fraca. Fraca. Fraca. Engole. Os nós das mãos brancos e as unhas cravadas na pele. Segura. Levanta a cabeça. Tá tudo bem. Tá sob controle. Eu dou conta. Eu aguento. Segura.

As mãos apertam uma à outra como faziam quando eu era pequena e fingia uma delas não ser minha, uma delas ser de um outro alguém que estaria ali ao meu lado, outro alguém que faria com que eu me sentisse menos sozinha, outro alguém que me faria companhia. Fecho os olhos pra não ver que o dedo que me acaricia é o meu. Se perguntarem sorri e diz que tá tudo bem, deixa que vão embora. O conforto busco em mim como sempre fiz.

Eu sei o que vai acontecer porque já vivi antes e em vão tento manter o queixo erguido. Lágrimas sobem aos olhos e a cada uma nova que escorre por minhas bochechas se renova o ódio que sinto por não conseguir as segurar quietas do lado de dentro. E como escorrem.

Não é só a dor que dói por dentro, o que mais dói é a dor doer por dentro. Não há armadura que eu consiga engolir, não há escudo, não há máscara, não há nada que eu consiga fazer para proteger meus órgãos macios e vulneráveis do ataque que vem de dentro. Tudo o que me resta é me deixar morrer.

E chora. Como chora. E treme. Não consegue parar de tremer. Tenta levantar e ir embora, mas não consegue. Tenta se sentar, mas não consegue. Só consegue tremer. Só consegue chorar. Seca os olhos com o papel encharcado, se encolhe no canto e não faz barulho algum. Torce pra que ninguém veja os olhos borrados nem a água caindo feito cascata pelas bochechas. Impotente diante da própria fragilidade. Minúscula. Fraca.

Mãe, o que é medo? Pergunta Pedro, com quatro anos. Ele que hoje cedo também chorou por ser deixado pelos pais na escola no primeiro dia de aula. Você vai me buscar depois, pai? Pergunta pela quinta vez nos últimos quinze minutos. Eu gosto da minha mãe. Eu gosto de você, pai. Soltas entre momentos de silêncio e lágrimas tão pequenas e já sendo engolidas, suas frases carregadas de dor me lembram dos meus próprios soluços de desespero e dos olhares de incompreensão porque não faz sentido sentir tudo isso se vamos nos ver de novo daqui a pouco. Seguro sua mãozinha entre as minhas e me deito em seu ombro até chegar a nossa hora. Eu também tenho medo, Pedro.

Medo de ter que encarar a vida sozinha. De sentir a dor que só cabe a mim sentir. De ver o chão que acabei de encontrar desaparecer por baixo dos meus pés e ter que continuar andando mesmo assim. De me ver de novo no lugar que acabei de finalmente conseguir sair. De perder o que me permiti amar desse tanto. De ter que continuar levantando o queixo e caminhando quando tudo o que tenho dentro de mim grita e chora e treme querendo cair.

No final das contas a gente sempre tá sozinho, né? No mesmo quarto me deparo com o mesmo buraco negro que senti dentro de mim quase um ano atrás e depois de ter acabado de sair do outro lado me vejo de novo no mesmo lugar. Assim é a vida, de novo e de novo até aprender. Abro os olhos e só vejo escuro. Respira fundo, segura o ar lá dentro e faz das pálpebras barragem. Seguro uma mão na outra, deixo as lágrimas caírem e levanto o queixo. Um passo de cada vez.

17 de fevereiro de 2023

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