169 | me perco um pouco no ponto disso tudo

aérea
3 min readFeb 21, 2023

Qual é o sentido disso que estou fazendo? Qual é o sentido de vir aqui dia após dia e despejar palavras ralo abaixo como se não houvesse amanhã [é até engraçado essa frase se formular dentro de mim dessa forma, engraçado porque foi justamente a possibilidade de não haver um amanhã que me fez começar tudo isso que agora venho aqui questionar].

Continuo me perguntando qual é o sentido disso tudo. Será que existe um ponto ou eu o perdi há muito tempo atrás? Acho que a ideia era a de trazer reflexões de pequenos cotidianos, mas perdi a razão em meio a tantos sentimentos e inundei meus cotidianos de coração, consequentemente também de mim.

E não era pra ser sobre mim, era, mas não era, sabe? Se bem que talvez tenha sido ingenuidade pensar que não seria e na verdade nunca houve a possibilidade de ser de outro jeito. Ainda assim me pergunto se não perdi a mão nesse tanto que despejo aqui, será que é tudo a toa e na verdade o melhor era deixar certos lugares guardados só para mim?

Existe um conceito, eu juro, mas ele muda e cresce tanto que fica cada vez mais difícil dar uma resposta satisfatória num espaço de tempo razoável, além de que depois de certo tempo explicando já vou ter perdido todo o interesse que me foi dado de graça, com certeza, porque parece que eu sou mesmo essa pessoa que não consegue falar sobre um assunto ou mesmo contar uma simples história sem acabar no meio do caminho se perdendo do ponto, pelo menos tem sido assim até agora.

Penso muitas coisas, mas tantas coisas, que quero escrever todas elas, mas aí acontece alguma coisa, seja ela grande ou muito muito pequena que me faz sentir de certo jeito e tudo o que eu queria falar vai pro ralo porque agora tudo o que eu quero falar é sobre o jeito como eu me sinto e não sobre a certa coisa, muito menos sobre qualquer uma das todas outras que antes me faziam querer falar.

E será que talvez seja esse o ponto então? Será que existe propósito em compartilhar sentimentos a esmo para quem acaba parando aqui pelo motivo que seja? Sentimentos que nem para serem poesia se prestam, e olha que continuo tentando.

Mais ainda, tem também a consciência cada vez mais presente de quem me lê, porque é fácil falar de mim pra quem não me conhece e muito provavelmente nunca vai me conhecer, mas quando quem eu toco com as minhas palavras são aqueles que eu mais amo, é aí que o bicho começa a pegar. Já me desprendi em certo nível e acho que também aí existe um ponto, mas também nem tanto e me pergunto.

Me pergunto muito e quase nunca me respondo. Não costumo sentir a necessidade de respostas tanto quanto sinto a de perguntas, são elas que mais me interessam e depois de feitas, confesso que muitas vezes acabo perdendo o interesse. E lá fui eu me perdendo de novo do ponto, mas qual era o ponto mesmo?

Como em tudo o que faço, o conceito toma conta como autoridade máxima de mim, mas e se for um conceito idiota? Existem conceitos idiotas ou apenas mal executados? Será o meu um conceito idiota? E no final das contas é sobre isso, sabe? Sobre as dúvidas e sobre as incertezas e sobre os tropeços e sobre as quedas. Porque tudo o que está por trás é tão importante quanto o que está na frente e acho que para mim na verdade é até mais, então continuo eternamente na minha meta ilusória de fazer um estoque perfeito enquanto a vitrine permanece vazia e empoeirada.

Às vezes o maior propósito é não ter nenhum propósito e quanto mais busco por um, mais o afasto daquilo que nasceu para ser. Às vezes também existe um propósito que só não se enxerga de fora ainda, mas está ali e parece que não existe, mas existe.

Tem dias que tudo o que eu tenho são perguntas, hoje parece ser um deles.

20 de fevereiro de 2023

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