175–182 | numa bolha fora do tempo e longe de tudo

aérea
11 min readMar 7, 2023

175 | 26 de fevereiro de 2023

E agora começa a nova etapa da aventura, dessa vez uma mais tranquila e pacata e a primeira viagem ao seu lado, literalmente, e me surpreende ao mesmo tempo que não saber que você gosta de sentar no corredor no avião. Eu, como toda boa criança, vivo pela janela, mas dessa vez sentei no meio e segurei a sua mão. Um começo turbulento pelo despache em cima da hora. Você nunca perdeu um vôo. Eu não só já perdi vários como um no mês passado. Mas esse não perdemos, só perdemos a sua mala que teve que ser despachada porque aparentemente violão conta como dois volumes. Pensei ok, você ficou indignado. Sorri. Tá tudo bem, é só pegar depois junto com a minha, dá nada.

Eu aceito o não e dou de ombros, afinal, se é assim que as coisas são eu lá vou fazer o que? Você pensa que não porra nenhuma, vai dar certo essa merda, e faz tudo o que pode para que essa merda dê certo. Meu ascendente mutável se adapta às circunstâncias, o seu fixo as seguram pelas mãos. Acho que de uma forma fofa nos equilibramos. O moço ao meu lado dorme. Há um cadarço preso pendurado para fora do compartimento superior. Queria abrir a porta e o colocar para dentro de volta, bem que um comissário de bordo podia passar por ali e arrumar, mas ninguém mais parece reparar no cadarço que ficou preso do lado de fora. O café de avião agora é solúvel, que ideia miserável. Você comprou as castanhas caramelizadas cheirosas na chegada, que ideia boa, as comemos no carro.

As paisagens nunca antes vistas me saltam aos olhos e tudo me encanta, especialmente a carinha feliz pintada no muro da casa. Passou tão rápido, mas eu vi e sorrio pensando em quem a colocou ali, queria que essa pessoa soubesse que fez uma outra sorrir com a carinha feliz que pintou no muro daquela casa, espero que onde quer que ela esteja ela sinta um brilho na alma pelo sorriso de encanto que criou em mim. Me sinto cheia de vida e absorvo tudo o que consigo com meus só dois olhos inquietos passeando por todo lugar. Sinto seu olhar na minha nuca e sinto um brilho na alma pelo seu encanto por meu sorriso, mas não consigo me virar. Há tanta paisagem do lado de fora, tanto céu, tanto muro, tanta planta, tanto pássaro, tanta tinta, tanta história, tanta vida do lado de fora.

176 | 27 de fevereiro de 2023

Há coisas que só podemos ver quando já estamos olhando muito antes de enxergar. Relâmpagos são assim, pessoas também. É incrível o tanto de coisas que conseguimos perceber quando não nos prendemos a nada. O olhar divaga por entre árvores e galhos e luz e sombra e pássaros e cercas e muros e vacas e luzes que piscam no escuro quase total da noite na fazenda.

Respira o ar puro, vai. Só existe. Não faz nada sem estar tentando não fazer nada. Não é preciso passar o tempo e nem correr para alcançá-lo quando não há lugar algum para estar. Não existe tempo quando tudo o que temos é tempo.

Detalhes nos móveis, nos portões, nos postes, nas cadeiras, nas paredes. Detalhes de uma época em que se podia usar o tempo com detalhes.

Percebo que não preciso de muito para me desligar do mundo, da correria, da tecnologia. O vazio é o meu natural e sentada na cadeira da varanda em frente ao verde tão verde que se torna um só passo não sei quanto tempo olhando o céu escuro à espera dos relâmpagos que enchem a mim e ao céu de luz apenas por um instante. O celular sem sinal largado em cima da mesinha serve apenas para olhar a hora duas vezes por dia no máximo e ainda assim perde toda a bateria. Ah, se eu pudesse simplesmente o esquecer para trás e nunca mais receber uma notificação de aplicativo.

Como disse minha mãe um dia desses “não entendo essa coisa que as pessoas falam de ter que se ocupar pra passar o tempo, eu nunca sinto que preciso passar o tempo”. Parece que tenho de onde puxar. O tempo só é e aqui nesse pedacinho de paraíso perdido no meio do mundo que continuou acontecendo consigo me desligar de tudo e estar aqui ao seu lado deixando os olhos fixos no escuro à espera dos relâmpagos que me enchem de luz.

177 | 28 de fevereiro de 2023

Gosto quando olho para o céu no meio da tarde e vejo a lua brilhando branca como as nuvens no céu todo de azul.

Às vezes lendo um livro me pego começando a ficar ansiosa por terminar logo, ansiosa por ainda ter várias outras coisas que ainda quero ler e me dá uma vontade de largar esse e começar logo tudo ao mesmo tempo. Acho engraçado quando vem esse sentimento e comecei a o perceber como o limiar da minha capacidade de atenção. Insisto apesar da resistência e me sinto alongando um músculo cada vez mais atrofiado pelo excesso de estímulo. Foco, Mariana. E nessas horas uso meu nome inteiro.

Gosto de perceber quando empurro esse limiar cada vez um pouquinho mais para a frente e, quando o sinto perto demais entendo como um problema se aproximando. Não, não quero me entregar ao instantâneo, me recuso. Persisto na leitura lenta e longa de uma página de cada vez, palavra após palavra, e me alegro com a minha resistência à gratificação instantânea. Talvez seja exagero meu, mas tenho uma satisfação muito particular em resistir à uma tentação artificialmente inseminada.

178 | 1 de março de 2023

A risada no meio da música difícil de tocar. A gargalhada pela referência do episódio ruim da série maravilhosa que passou sem ser assistido. O risinho de um segundo de confusão pela vegana que pede uma linguiça só para sacanear. O ladinho esquerdo da boca que se levanta junto com os olhos que olham nos olhos de quem pensou a mesma coisa ao mesmo tempo e nem precisa falar. Os dias vazios não são nem um pouco vazios quando se preenchem de você.

179 | 2 de março de 2023

É nessas horas que me lembro das aulas de acrobacia aérea. Suspensa a cinco metros do chão pelo tecido enrolado em meu corpo, só preciso soltar a mão para cair. É uma queda intencional e a essa altura é até mais fácil cair. Porque entre as travas na coxa, na barriga e debaixo do braço, não sei qual delas machuca mais. Já sinto os roxos se formando por baixo da roupa, preciso soltar. É agora. Não solto. Agora. Mão nem se mexe. Solta. Nada. Solta. Solta. Solta. SOLTA.

E nada acontece.

Minha mão também segura minha garganta quando as palavras que passam pela minha cabeça podem me empurrar para a queda livre. Eu sei. Eu sei. É só falar. Não tem nada demais se eu só falar. Mas não falo e quanto mais o tempo passa mais aumenta a minha distância do chão. Sei que as amarras estão firmes e bem posicionadas, sei que não há perigo real, ainda assim meu coração quase explode no peito. Não consigo soltar.

Não sei se é quem eu sou, se fui feita assim ou se os dois.

Sei que não quero te decepcionar e demonstrar qualquer falha me coloca em queda livre. Talvez sejam os tais dos daddy issues, talvez seja minha experiência na vida, talvez seja o papel que fui ensinada a ter como mulher, talvez seja imaturidade, mas quando sinto que algo é esperado de mim eu não consigo negar. Sei também que essa sensação é totalmente subjetiva.

Quero lidar sozinha com isso porque não tem nada a ver com você, mas fazendo isso te afasto. Quero conseguir comunicar tudo de uma forma que fique claro que é puramente meu/comigo, mas as palavras giram ao meu redor sem que eu consiga as alcançar quando não é com a mente que sinto. É subjetivo.

Me sinto segura. Me sinto absolutamente e cem por cento segura. Isso não me impede de me sentir insuficiente e apavorada de que em um passo em falso tudo o que temos cai pelo buraco. É agora, sinto, é assim que tudo muda.

De novo não, chorei. De novo não, você afirmou. A certeza correu dentro de mim. Não é justo achar que tudo se repete da mesma forma quando somos outros. Eu sei.

A insegurança, contudo, é a mesma.

A vida tem me mostrado que as faltas se preenchem mesmo quando não são faltas. Não há nada que se possa fazer.

Ainda assim me vejo sendo falta e dou mais uma volta de tecido no pescoço.

Ontem falávamos sobre personas e hoje me pego pensando sobre isso aqui. Já algumas vezes me questionei se quem escreve é mari ou outro alguém, afinal, é aérea quem consta no título e penso que a criei por um motivo. Não só para me esconder por trás de um outro nome que me representa, mas porque é uma outra voz que fala através de mim.

Acontece bastante de quem me conhece vir me perguntar se está tudo bem porque leu algo meu por aqui e imagino que às vezes deva ser confuso mesmo para quem convive comigo me ver diferente de como me lê. Ao mesmo tempo que é diferente não é e se falo sobre algo que sinto é porque em alguma instância senti, mas nem sempre é exatamente assim. Assumi como princípio ser sincera nesse espaço e acho que a sinceridade vem quando falo um pouco sobre as minhas escolhas e o por quê delas também. Escolho me derramar aqui e sim, às vezes as coisas se tornam maiores do que são por um momento, mas ao mesmo tempo é essa torrente que lava de mim todo esse sentimento e me deixa pronta para continuar vivendo.

Antes de abrir essa aba tudo isso se torna bolo de entranha entalada no pescoço pressionando o peito e bolo de entranha não fala, então não entendo muito bem o que ele quer de mim. Os dedos se tornam desvios quando o bloqueio na garganta não deixa nada passar e por aqui começo a desenredar todo o trânsito que de outra forma só se faria acumular dentro. Só que enquanto a voz é tímida os dedos são teatrais, descendente de italiana, sabe como é, falo com as mãos, então aproveito para pintar dentro e fora das linhas da forma como me faz sentido. Nem sempre faz.

Nem sempre também é sobre mim, mas me uso de bode. Nem sempre tenho uma ideia que quero comunicar e simplesmente transbordo tudo da forma mais verossímil que consigo, mesmo que me pareça inútil e, sinceramente, uma exposição desnecessária. Nem sempre tenho algo a dizer, nem sempre tenho algo a sentir, nem sempre tenho algo, mas cá estamos.

Nem tudo é real e ainda assim tudo é. Nem tudo sou eu e ainda assim tudo é. É sempre a mari que fala, mas nem sempre é a mari que fala. Acho engraçado perceber por quantos lugares eu consigo passar num só dia. Será que em algum nível eu deveria me preocupar?

180 | 3 de março de 2023

Foi o sorriso, daqueles de ponta a ponta que mostram todos os dentes e a gengiva e que fazem também o rosto inteiro sorrir. Não sei o que tinha de tão engraçado naquele celular, mas ela quis compartilhar com a pessoa com quem compartilhava uma caminhada tranquila na calçada cheia de gente. As mãos entrelaçadas que se faziam carinho assim como os olhos que se faziam carinho com o olhar. Da janela do carro vi amor e percebi o quão raro é vê-lo assim de fora.

Na padaria três pessoas. Uma delas a moça do caixa, que teve a visão privilegiada de um momento entre tantos na mesma tarde. Três pessoas e dois picolés, um de uva, um de chocolate. Lá fora 36 graus. Entre cotoveladas e tentativas de bloqueio corporal cartões de débito travam uma corrida acirrada para ver quem vai pagar primeiro. Na padaria três pessoas, duas se amando e uma vendo isso que é tão raro de ver assim de fora.

Na calçada os picolés derretem e não são só eles. Os olhares dizem tudo e não conseguem parar de se olhar. Risinhos e risadas, sorrisos, dancinhas e abraços. O sol é quente e tudo com ele se esquenta.

O dia, parece, é dos apaixonados.

181 | 4 de março de 2023

Nossa primeira viagem de avião e nossa primeira viagem de carro. Eu, você e seus avós depois de dias passados naquela casa histórica só eu, você e seus avós. E Dona Teresa.

Queria ter tirado mais fotos, mas tive dificuldade de me ausentar dos meus próprios olhos por tempo o suficiente para colocar uma lente entre eles e a vida. Vida essa que estava sendo tão deliciosamente e lentamente saboreada em cada detalhe.

Olhando pela janela do carro folheio em minha mente as fotos que não tirei com a câmera, mas que em mim ficaram gravadas:

Colher de pau, guarda-chuva e bengala juntos numa união fora de contexto e que juntos permaneceram do começo ao fim sem nunca entrarem em consenso, muito menos em contexto.

Quatro potes de plástico com tampas coloridas no topo do armário, o da ponta deitado de lado. Um belo dia acordei e ele estava em pé como os outros, alguém o viu como eu, só que diferente de mim o arrumou. Queria saber quem foi, mas me agrada a magia do mistério.

As cabeças se quebrando ao redor do quebra-cabeças que insiste em ser difícil e que termina sem poder ser terminado por uma única peça que falta, preservando-se eterno enquanto inacabável. Gosto da magia do eternamente inacabado.

As músicas tocadas na cozinha em ordem cronológica e a espectadora com os pés em cima da banqueta a observar seu pequeno show particular.

O quais-as-chances-de-isso-não-ser-um-portal exposto no tronco de uma árvore centenária.

Os olhos saudosos de quem se lembra com carinho dos entes queridos.

A inquietação do jovem longe de suas distrações.

O coração magoado no jardim das aranhas.

Penso nessa experiência como um todo e no quanto agora te conheço muito mais por saber de onde veio. Penso no quanto sou sortuda em poder enxergar a criança que um dia percorreu esses morro tudo a cavalo no mesmo corpo crescido que me abraça apertado.

Penso nisso tudo e mais um tanto enquanto observo a paisagem pela janela do carro e enquanto você dorme pesado em meu colo. Mas o peso do seu corpo na minha perna mal-posicionada faz o quadril inteiro começar a doer e me concentro em aguentar mais um pouquinho, afinal, você dorme tão bonito assim dormindo pesado em meu colo no carro.

182 | 5 de março de 2023

No cantinho especial do telhado onde dá para subir e a vista é linda subimos e admiramos a vista linda ao pôr-do-sol. Um avião particular daqueles diferentes que eu não sei o nome porque não entendo de aviões passa voando por cima de nós e sorrimos olhando para o céu. Você notou os pássaros antes de mim e pensando bem isso tem acontecido cada vez com mais frequência.

De volta em casa e se acostumando aos poucos com a perspectiva de uma vida que continua acontecendo e que exige que aconteçamos junto a ela. Era para eu já ter saído da sua casa e voltado para a minha, mas depois de algumas conversas difíceis e momentos intensos também precisamos de mais um pouco de beleza para acalmar os corações machucados. Você desce o cacete na bateria e eu piro ao descobrir que consigo desenhar o que vejo nas sombras. Num encaixe estranho nos equilibramos. Caçamos mosquitos como de costume. Te ensino mitologia e você me mostra a forma como ela foi usada no jogo que gosta. De volta em casa e acostumando aos poucos com a ideia de estar de volta em casa e tudo o que volta quando voltamos para ela. Calma.

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