188 | quando plutão te olha nos olhos

mari
2 min readMar 14, 2023

Tem dias que tudo mexe com a gente, como uma mão que se enfia pela boca e desce garganta abaixo até torcer o peito. Tudo o que precisa é de uma palavra, de uma voz rasgada, de uma cena que não parece ter nada a ver com nada até que bate naquele ponto, aquele lá, perdido e esquecido no canto escuro da sala abandonada. E quando vê se encheu de lodo até o tampo, de recém limpinho a imundo em um segundo.

Mas quando passa o dedo na sujeira ele sai novo em folha. E esfrega a mão inteira na sujeira e ela sai nova em folha, limpa, intacta. E a sujeira na superfície, intacta. Tudo permanece como está não importa quanto se tente interferir. Será que é tudo impressão minha? Será que estou vendo o que não está aqui? Sentindo o que não está aqui? Será que… Será? Não. Não se lembra? É memória. Memória tão viva que parece que acontece agora, mas já foi, já passou, não está mais aqui o que um dia já esteve. Sacode a cabeça e chacoalha a lembrança para fora.

E tem olhos que quando a gente olha desfazem todos os nós que se apertam por dentro. Olhos que puxam sem puxar e que sem que você perceba já te envolveram em labareda, o corpo inteiro esquenta sem queimar pouco a pouco e devagar até que todo de uma vez. Olhos de fogo púrpura que escurecem o dia e iluminam a noite, que brilham incandescentes e indecentes. Transmutando, transformando, transbordando. Sem tempo a perder.

11 de março de 2023

--

--