19 — planos mudam, e eu também

Bom, se tem uma coisa que a humanidade inteira aprendeu na marra nesses últimos anos é que as coisas mudam. Nessa viagem poucas coisas saíram como eu esperava, e olha que eu já estava pronta para aceitar o que viesse. O que eu não esperava era que eu também não sairia dela como eu esperava. Eu, que nunca fui boa em aceitar quando as coisas fogem do meu controle, me vejo finalmente entendendo que o controle que sempre esteve na minha mão nunca foi para controlar a televisão, e sim quem o segura.

Logo no segundo dia, ainda na viagem de carro, nos deparamos com uma obra mal-feita no meio da estrada que nos fez ficar paradas por cinco horas sem nem saber quando iríamos conseguir andar de novo. Antigamente uma mera meia hora de atraso já teria me feito espiralar fora de controle em uma tormenta de reclamações que só fariam com que todo mundo se estressasse mais ainda. Percebi o quanto mudei quando me vi sendo o alívio cômico que impedia minha mãe de começar a se preocupar. Abrimos os vidros para deixar o ar da noite entrar e as nossas indignações saírem, ouvimos música e conversamos até que finalmente os carros voltaram a andar. Chegamos ao nosso destino já de madrugada, cinco horas atrasadas e cansadas, mas com uma história só nossa para contar. E o melhor de tudo: a contamos rindo.

Acabei não conseguindo encontrar todas as pessoas que eu queria rever, mas aproveitei ao máximo aquelas que pude e fiz desse tempo um tempo de exploração e descobertas. Me permiti me encantar com tudo que passou no meu caminho e sinto que deixei por onde passei a vontade de se encantar. Aproveitei para buscar as respostas que venho buscando há tanto tempo no meu passado e usei tudo que encontrei ao meu redor como objeto de estudo.

Já feliz com o andamento das coisas, cheguei na casa da minha irmã e me deparei com o corona. Ela positivou. Eu, que tinha separado a maior parte da viagem para ficar com ela, acabei tendo que ficar trancada comigo mesma no seu quarto de visitas. Quatro livros e duas temporadas depois, refiz o teste e descobri que me isolei para nada. O corona passou por debaixo da porta.

Eu tinha me preparado com antecedência para que, durante essas três semanas de viagem, tudo que viesse seria bem-vindo. E tudo foi! Mas agora as três semanas se tornaram quatro e minha casinha querida que estava há só dois dias de distância subitamente me pareceu tão longe. Hoje, enquanto tentava adiar minha passagem de volta, pela primeira vez me permiti resmungar um pouquinho. Minha voz soou estranha aos meus ouvidos e pinicou em minha pele. Desse reencontro eu não gostei, então parei.

Então parece que essa mini saga continua por mais um pouco e talvez tenha sido justamente ela que manteve tão viva a minha presença. Saber que teria que escrever algo ao fim de cada dia me fez querer encontrar em todas as experiências o melhor que havia ali, e esse me parece um bom jeito de viver a vida. Amanhã é um novo dia e eu não faço a menor ideia do que vem lá, mas sei que o que quer que seja, será no mínimo mais uma história para eu contar.

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pelo visto esse é o meu diário

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