194 | sobre silêncios

mari
2 min readMar 18, 2023

Tem silêncios que falam mais do que mil palavras enquanto outros não falam nada. Tem silêncios que só são e por querer preenchê-los os tornamos falta. Tem silêncios que crescem como ervas daninhas, pouco a pouco tomando conta de tudo o que há e roubando das palavras a sua magia, transformando tudo o que tocam em mais e mais, cada vez mais, silêncio.

Alguns silêncios são hereditários, herdados pelo sangue sem nenhum poder de escolha além da de escolher o que fazer com ele uma vez diagnosticado. Independente de ser quebrado ou não, ele faz parte de quem se é e tudo o que pode vir a ser depende de como essa escolha foi feita.

Alguns silêncios chegam por mensagem, empacotados em embalagens bonitas e entregues como presente. São eles que moram atrás dos sorrisos que não chegam aos olhos e dos abraços sem coração. Eles que dão as mãos e dizem que vai ficar tudo bem, que sustentam o olhar apenas pelo tempo necessário e nem um segundo a mais. Esses são fortes e aguentam muita coisa, esses silêncios, mas o que eles não conseguem aguentar de jeito nenhum é um segundo a mais.

Há silêncios que escolhemos alimentar dia após dia com a nossa própria comida, pouco a pouco tirando porções cada vez maiores de nossa cada vez menor fatia. Esses são os que guardamos em cativeiro e nos convencemos de que sem nós morreriam, ou que nós morreríamos, ou que alguém, sem dúvida alguém, morreria, mas a verdade é que muito provavelmente ninguém morreria, ninguém. Inclusive muito pelo contrário.

Outros simplesmente são e existem em paz com a natureza por entenderem que também eles são natureza. Tudo contém silêncio, até mesmo o silêncio, então por que negar ou, pior, tentar mudar o mais simples curso natural de tudo o que existe? Esses são os silêncios repletos de sabedoria por não tentarem se preencher de nada, pois como bem sabemos, a sabedoria só chega a ouvidos abertos.

Há um grande silêncio por trás desse texto e vários silêncios menores à espreita em cada palavra. Alguns deles nem eu ouvi, mas os percebo pela sensação já muito familiar na garganta, talvez o equivalente da fala para o que se enxerga com o canto do olho. Há um silêncio que me envolve num abraço sereno nesse instante enquanto outro me mastiga lentamente por dentro.

17 de março de 2023

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