198 | talvez meus olhos sejam ouvidos [tiro fotos daquilo que ouço]

aérea
3 min readMar 22, 2023

Edredom macio na pele. Faz frio e justamente por isso o geladinho é mais gostoso. Os dedos digitam furiosamente o texto de ontem até que desaceleram, pouco a pouco se desligando junto com o resto do corpo. Ela dormiu com as mãos no teclado.

O sol entra pela janela sem cortina e nem persiana. Nasceu o dia e foi só os olhos se abrirem que o despertador convoca os passarinhos: hora de levantar e quanto tempo faz que não acorda tão cedo. Difícil. Veste uma roupa, escova os dentes e vão juntos buscar os pais no aeroporto.

Casa cheia, mente cheia, corpo ainda cheio das grandes emoções vividas no dia anterior e que agora não encontram espaço para sair. Minha casa de todos nós, meu quarto de vocês, meu quarto seu, fui ao shopping comprar o que precisava.

Na loja colorida uma vendedora colorida faz comentários coloridos sobre nossa relação colorida. As pessoas nunca sabem o que somos, afinal, somos de tudo um pouco mesmo, não tem erro. Vamos embora porque não decidi qual cor comprar. Rimos, a vida é engraçada.

Logo depois volto sozinha, decidida a decidir e ainda estupidamente indecisa. Uma pergunta com sede de resposta puxa respostas sem fim e quando vê todos os olhos se alternam para olhar fundo nos seus. Meus. Terceira e primeira pessoa coexistindo e se revezando no mesmo corpo em pé na frente de outras seis. Pessoas são interessantes, né? Eu olho pra você tentando te enxergar, você olha pra mim tentando me enxergar e a gente fica assim. Nos olhamos nós duas em silêncio por sei lá quanto tempo. É, mas mais do que tentando ver o que você não tá mostrando eu tô presente com o que você tá mostrando e eu acho que é assim que a gente se conecta. Todos os olhos fixos nas duas que se olham com curiosidade, nós duas. Elas olham demais, né? | É, é difícil de aguentar, eu preciso desviar pra baixo | É, é isso | Resisto ao impulso de ficar sem graça e me esconder. Cada pessoa é uma pessoa, né? É, cada pessoa é um universo inteiro. E pessoas são fascinantes, nem todo mundo, né, tem gente que não dá vontade nenhuma de conhecer, mas é por isso que quando a gente encontra alguém que acha interessante tem que se interessar mesmo e fazer pergunta | É porque pra mim o cliente não é um cliente, cada cliente é uma pessoa e eu tenho vontade de saber mais. Outra cliente entra na loja e somos lembradas de que estamos numa loja. Ah, é, né, a gente tá trabalhando. Ah, é, e eu tava tentando escolher uma bolsa.

Mais tarde depois de um pequeno quase-surto e a busca por refúgio: Já sabe sobre o que vai escrever hoje? Não. Escreve sobre isso aí que você tá sentindo. O que? Sobre ser pinçada por todos os lados. Mas é que eu já falei tanto sobre isso — e me sinto uma criança birrenta falando eu, eu, eu, olha como eu sofro porque tem gente demais querendo falar comigo e me contar coisas e pedir a minha opinião e é simplesmente demais estabelecer tantas conexões assim tudo ao mesmo tempo e eu fico sobrecarregada e me dá vontade de chorar, coitadinha de mim [revirada de olhos]— Então fala sobre as meninas do shopping.

Já sei.

Não é sobre a vista, é sobre os olhos e o que eles estão dispostos a ver.

Posso te citar? Ué, desde quando você pede autorização?

21 de março de 2023

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