223 | ela se sente sozinha

aérea
2 min readApr 15, 2023

Se sente sozinha e por sentir-se sozinha se faz mais ainda, aceita o destino humano da solidão e o faz seu, assume para si, adota as dores do mundo e as coloca no cantinho mais macio do peito. A verdade é que é a única que tem, só, e por mais que queira, não tem como a contornar. Nem quer, ainda assim meio que queria, só um pouquinho, pelo menos em algum lugar tão macio quanto o de dentro do peito, manter viva a ilusão de que tem algo além de si.

Se sente sozinha e por sentir-se sozinha se faz mais ainda, não fala com ninguém. Não quer cutucar a ferida tão recente, não quer se lembrar, não quer sentir, ou melhor, só quer sentir e sentir sempre foi se sentir sozinha, mas não mais e é isso que assusta. Só existe uma constância na vida, ela mesma, todo o resto muda e como, e mesmo ela mudando, não muda, não sai de si a não ser em pensamento, em sonho ou ilusão, e fora de si é difícil saber qual é qual quando nem de dentro se sabe.

Se sente sozinha e por sentir-se sozinha se sente mal porque sabe que não está, que nunca esteve e que tudo isso que sente e que sempre sentiu não passa do seu sentir, ele que também sempre foi constância e que sempre esteve ali e que sempre esteve certo, ou que se fez certo por querer estar. Difícil saber quando todo o saber vem do sentir e mais difícil ainda dizer quando para dizer precisa saber o que diz, mas não sabe, nunca soube, sempre sentiu e o sentir se basta.

Se sente sozinha e por sentir-se sozinha tem medo das piruetas que o estômago dá quando por um segundo não se sente só e por um segundo se preenche daquilo que queria se preencher o tempo todo, tão bom que é. Estômago piruetante que tem gosto pelo pão quentinho recém saído do forno, tão gostoso que come antes mesmo de chegar em casa, come arrancando pequenos pedaços com os dedos, saboreando cada migalha, sentindo o miolo se derreter no céu na boca sabendo que logo vai esfriar. Degusta no limite, no máximo de vagarosidade que o passar do tempo permite.

Se sente sozinha e por sentir-se sozinha quer se preencher da solidão, o nome que deu à própria companhia, constante única na qual ousa se apoiar sem medo, mesmo que tremendo.

15 de abril de 2023

--

--