225 | bati a cabeça com força no vão da porta

aérea
2 min readApr 18, 2023

Tem vezes que o tempo me atropela, me joga para longe e me derruba no chão, rala meus joelhos, cotovelos e, se eu der sorte, não quebra nenhuma costela. Outras vezes não, em outras ele chega sem corpo e me atravessa. Não tem impacto, não é grosseiro, não me machuca, mas feito fantasma ele passa por entre minha pele e meus ossos e meus órgãos e me atravessa como se eu, como ele, fosse fantasma.

Desorientada tento lembrar de como o dia começou e tudo o que aconteceu nele até chegar aqui. Tento me lembrar de ontem e do que vem amanhã. Desorientada busco na linha do tempo alguma orientação pois, quando dei por mim, já estava muito longe dos trilhos. Subi a montanha, alcei vôo e vi a paisagem de cima, tive um vislumbre de algo que, lá do alto, não consigo entender o que é, mas definitivamente é algo e parece que é para lá que estou indo.

Não saber me aflige, mas saber que sei de algo que ainda não sei o que é me angustia. Nesses momentos me sinto louca, medrosa, assustada, me sinto personagem da minha própria ficção quando sei que a vida não é fantasia, ainda assim coisas fantásticas acontecem a torto e a direito e nesse dilema entre real ou não me perco mais ainda do trilho. Existe um trilho sob meus pés? Já existiu em algum momento? Onde é que eu estou?

Me sinto permeável demais ao tempo, como se ele passasse por mim sem deixar marcas ainda que eu veja em meu próprio corpo as marcas que ele me deu de presente. As cicatrizes, os hematomas, os pés de galinha precoces, as tatuagens, os toques que não ficam na pele mas que chegam até ela quando acesso memórias, os cabelos que crescem.

Gosto de andar descalça para sentir o chão sob meus pés e lembrar de onde estou, mas também gosto de usar botas grandes e pesadas que me impeçam de acidentalmente alçar vôo. De ossos ocos e cheia de gás hélio, se der mole quando vi já estou no alto. Lá de cima vejo muito, tanto que nem sempre sei o que vejo.

17 de abril de 2023

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