227 | mais um daqueles

aérea
2 min readApr 19, 2023

Acho que era amor que eu buscava, correndo de corredor em corredor, de quarto em quarto, revirando camas e armários em busca da bolinha mágica cor de rosa que estava escondida em algum canto. Escondida não, guardada, eu só não sabia onde.

Quartos enormes com tetos altos e chão de madeira, armários de madeira, camas de madeira, janelas enormes sem vista pra fora – talvez até tivessem, mas dessa vez não vi, me interessava o dentro –. Quadros e mais quadros povoando as paredes de que? Não lembro dos quadros, mas lembro das molduras trabalhadas em detalhes, passei os dedos por elas algumas vezes.

Tapetes longos se estendiam pelo chão um atrás do outro e meus pés passavam por eles com um objetivo muito claro: a busca pela bolinha cor de rosa que tinha que estar em algum lugar. Onde? Quartos e mais quartos e mais quartos, todos com portas abertas assim como os armários vazios revirados um por um, os mantive abertos para lembrar por onde já passei. O tempo é precioso demais para ficar procurando a mesma coisa nos mesmos lugares onde já vi que não está.

Armários vazios, por que os armários estavam vazios? Tantos quartos desocupados em uma casa desse tamanho. Cadê a vida? Claramente ninguém mora mais aqui. Talvez essa casa já tenha tido seus dias áureos em outra época, afinal, tudo aqui parece antigo, mas agora é mantida vazia e enorme. Desocupada a não ser pela estufa gigantesca onde várias pessoas cultivam uma horta farta. Seria uma linda paisagem, não fosse a iluminação verde espectral estranhamente suspeita. Qual é a dessa luz?

Me apressam para ir embora e sigo procurando sem descanso. Estou determinada e não saio sem ela, sei que está aqui em algum lugar, eu sei. Vou encontrar. Por fim achei em algum dos armários em algum dos quartos que não me lembro mais, peguei e respirei aliviada, agora posso ir. A bolinha rosa que flutua no espaço, o único artefato mágico nessa casa de madeira tão sólida, o único elemento que não parecia real no sonho inteiro, e o que é esse não real que você não podia deixar pra trás?

Um sonho daqueles que não é o efeito de causas conscientes, um daqueles que é ele mesmo causa. Me pergunto quais serão os efeitos, as consequências, os desenrolares dessa busca tão profunda que precisei estar dormindo para fazer. Uma casa que fazia muito tempo que eu não visitava, mas que ainda é mantida intacta, limpa e bem cuidada, que ainda produz vida mesmo que não habitada. Não tinham nela portas trancadas, não tinha escuro, não tinha desconforto, tinha algo muito importante que ficou para trás e que já estava na hora de eu voltar para buscar. Ainda não sei o que é e nem para que serve a tal da bolinha rosa que parece emanar mágica, mas acordada eu jamais conseguiria a alcançar, então dormi um sono pesado e visitei partes de mim onde só consigo chegar em sonho. Acordei e a trouxe comigo.

19 de abril de 2023

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