237 | desejo de paçoca

aérea
2 min readMay 2, 2023

Nunca achei graça em paçoca até o dia em que o sol nasceu na minha barriga. A tatuadora grande amante dos tijolinhos comia um atrás do outro e para a minha próxima sessão comprei um pacote de paçocas para nós duas. O negócio é que ela teve que ser remarcada e, por fim, o pacote dentro do armário virou sobremesa. Depois dele não parei mais.

O dia em que eu recusar uma paçoca… — na pausa dramática os olhos escuros se mantém fixos nos meus e minha mente já começa a tentar preencher a lacuna recém formada de todos os jeitos possíveis enquanto espera pela resposta correta — vai ser o dia que eu tiver atingido a capacidade máxima de paçoca. Enquanto eu não tiver chegado no máximo de paçocas eu sempre vou querer mais uma paçoca.

Quando fico em silêncio geralmente é porque fui incapaz de encontrar uma resposta à altura, porque o que foi falado me levou para tantos lugares que preciso de alguns minutos para absorver o pensamento em todas as suas camadas ou porque achei uma frase digna de encerrar o assunto.

No racionalismo ético me deparo com a diferenciação entre necessidade, desejo e vontade: a necessidade consiste daquilo que precisamos para a nossa existência, o desejo vem do prazer sentido ao realizar tais necessidades e a vontade é a consciência que parte para a ação de satisfazer ou não tais necessidades ou desejos.

Muitas vezes quando sinto fome não sinto a vontade de comer. Reconheço o estado como a necessidade de alimento, mas não sinto o desejo e nem a vontade de satisfazê-la. Outras vezes como sem precisar e nem querer, mas simplesmente porque tenho um desejo insaciável por algo que me preencha. Outras ainda como só porque sei que preciso sem sentir prazer nenhum no processo.

Minha lua em capricórnio munida de ter crescido com intolerâncias alimentares nunca tirou da comida grande fonte de desejo e o corpo ossudo atesta para a secura da alma que nunca se deliciou na saciedade. A gente come porque a gente precisa e melhor ainda seria se não precisasse, digo.

Uma das minhas coisas preferidas no mundo é quando algo acontece numa micro-escala e com ela podemos perceber o macro com mais clareza. Assim em cima como embaixo, não é mesmo? E com tudo isso fresco em mente absorvo sua frase sobre paçocas e divago sobre a relação que temos com o desejo.

29 de abril de 2023

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