240 | bolo de laranja

mari
2 min readMay 3, 2023

Pra que tanta caixa inútil guardada meu deus do céu? Pra que tanto resto de coisa? Pra que tanto acúmulo de acúmulos que eu nunca, jamais, em momento algum vou usar? Do tipo de coisa que só se sabe que se tem quando vai se desfazer e ainda tem a coragem de pensar ai, mas vai que um dia vai ser útil. Baboseira. É tanto lixo guardado ocupando espaços da minha casa e do meu espírito e da minha sanidade mental que já tava era na hora de dar uma sacudida na poeira. Nem tudo se foi, mas já foi muita coisa e de pouco em pouco o alívio vai chegando. Tem dias que tudo o que a gente precisa é de uma boa faxina.

Liga o microfone, você me fala quando eu faço caras de muitos pensamentos, mas é difícil de me acompanhar rápido o suficiente pra conseguir falar alguma coisa sobre o tanto de coisa que acontece dentro de mim. A linguagem me chega depois, primeiro é tudo sensação. Talvez eu devesse começar a escrever ao invés de só ficar parada com cara de muitos pensamentos. Quero me soltar por inteiro, mas ainda não consigo mesmo depois de tudo.

Sinto meu rosto se moldar em expressões que nunca me vi fazer e percebo que a pessoa que vejo no espelho nunca se mostrou por completo, se é que isso é possível. Tem vezes que estou tão focada que esqueço estar dentro do meu corpo. Que foi? Você me pergunta, e percebo ter me deixado ir, a autoconsciência volta como um soco e perco toda a linha de raciocínio.

Classifico minha vida em processos, não em anos ou semestres, e esse começou na cozinha da sua casa. Ou pelo menos foi aí que eu o percebi pela primeira vez, mas talvez tenha sido não muito antes disso, quando te enxerguei e vi em seus olhos que você me enxergava também.

2 de maio de 2023

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