242 | no meio do caminho tinha uma parede

aérea
6 min readMay 5, 2023

Queria conseguir te explicar que as coisas só são demais pra mim mesmo, que um dia normal na minha vida consiste em no mínimo várias grandes reviravoltas emocionais, que preciso chorar como preciso de alimento ou talvez até mais, que morro de medo de ser um estorvo e por isso tento guardar o que sinto dentro de mim, mas você enxerga através de todos os meus melhores esforços e não quero ser sempre a pessoa que traz um prato cheio de processos emocionais à tona no meio de um banho gostoso de fim de tarde. Só que eles aparecem quer eu queira ou não e é por isso que aprendi a não deixar ninguém chegar muito perto, especialmente nos dias em que a pele fica fina demais, permeável demais, sensível demais. Dias como hoje. Te pedi para ficar mais uma noite.

Meu instinto é me fechar para me proteger, mas não quero me proteger de você primeiro porque não preciso e segundo porque não quero, me sinto tão à vontade e os efeitos disso tudo que acontece com a gente já reverberam pela minha vida inteira, desbloqueando futuros e curando passados. Me sinto tão perto de me ser de uma forma que nunca cogitei ser possível e ao mesmo tempo os passos cambaleantes fazem com que eu me sinta cada vez mais tão distante. Depois de uma vida vestida de armadura a pele nua se sente em carne viva à luz do sol, e em carne viva o mais suave dos carinhos às vezes faz recuar.

Queria conseguir te explicar que em momentos me afogo dentro de mim e é por isso que por fora meu rosto assume aquela forma e é por isso que meu corpo perde a força e é por isso que me perco do que está acontecendo. Que meu mundo interno é maior do que o externo e que ele é constantemente arrasado por intempéries. Que é terreno hostil aqui dentro, sujeito a terremoto, tsunami, tufão, tempestade e todos esses grandes desastres que começam com t. A paisagem muda constantemente e deixa meus cartógrafos desesperados com pilhas de mapas traçados pela metade esparramados pelo chão.

Queria te falar que eu sei que eu me torno ampla demais, vaga demais, subjetiva demais quando você só quer uma resposta simples de mim, que eu me ouço dando voltas e sendo simbólica quando o melhor seria ser direta, que eu tenho netuno abraçando minha lua e tudo o que sinto é muito difícil de identificar tal qual uma pintura abstrata que você olha e chora sem saber o por quê, mas sabe que algo ali naquela amorfia azul te tocou em algum lugar. Tem vezes que eu sinto azul e é isso.

Que eu sei que inseguranças inseguranças inseguranças e que quanto mais a gente insiste nelas mais elas insistem na gente, que o jeito de deixar elas para trás é passando por cima, que quem escolhe sou eu, eu sei. Ainda assim o dilema interno chega ao meu rosto e os segundos se tornam horas de conversa quando eu só queria um momento gostoso em paz sem ser interrompida por uma tormenta inconvenientemente fora de hora.

Tenho medo de te deixar de saco cheio, de ser demais, turbulenta demais, chorona demais, rígida demais, medrosa demais, de te cansar com tanta coisa, com tantas vezes a mesma coisa, com toda vez a mesma coisa. Me sinto querendo me compensar e me faço falta, me pressiono onde não tem nada a ver com pressão e me sinto um fracasso. Também me percebo com esse discursinho ridículo de vítima chorona que só me enfia mais fundo no buraco. Levanta o queixo, mulher, para com isso, não é assim, eu sei, mas não consigo reagir a tempo de não precisar parar para recuperar o ar.

Queria dizer que já deixei tudo isso para trás, ou melhor, queria que só tivesse ficado e eu não precisasse mais falar sobre. Não aguento mais falar sobre, mas são processos de uma vida inteira que me atravessam feito fantasmas e me dão calafrios de gelar a espinha que cortam o calor gostoso que crescia por dentro. Queria que não fosse tão difícil o que parece ser tão fácil e ao mesmo tempo que cada vez fica menos difícil fica também mais intenso, ou talvez eu só tenha parado de fugir do que não tem para onde correr.

Queria parar de sentir que preciso me justificar, que preciso me desculpar, que preciso compensar toda e qualquer imperfeição que deixo transparecer. Queria parar de me cobrar tanto para não ser humana quando é justamente minha humanidade que estou tentando cada vez mais colocar para fora. Queria me aceitar como esse processo em desenvolvimento nunca pronto e enxergar a beleza nisso como enxergo tão claramente nos outros. Queria colocar na cabeça que o processo não é linear e que meu deus olha o tanto que já andei só por me concentrar em um passo de cada vez.

Queria parar de me sentir pequena diante dos meus monstros, mas nem todo dia tenho coragem para olhá-los de frente e eles me mordem as orelhas com dentes farpados. Queria conseguir comunicar melhor o que acontece na hora que acontece, mas preciso de um tempo para processar porque onde as coisas me atingem não é onde chega a linguagem. Pedra por pedra carrego o sentimento até um lugar iluminado. Não ando com muita força nos braços.

A oposição de saturno à vênus é como uma barreira que cresce alta no meio do caminho ao prazer. Como uma corda amarrada na barriga, no pescoço, nos tornozelos que me deixa ir só até certo ponto antes de puxar e sufocar, apertar, derrubar. Sempre ali presente, sempre parecendo impossível de atravessar, aprendi com o tempo que esse só não é um caminho que eu consiga seguir e o deixei quieto, criei atalhos, contornos, desvios daquilo que eu quero.

A questão é que você me mostrou toda a beleza que existe do outro lado e agora que eu sei eu quero, e você me tenta e eu me tento e a barreira me olha de canto sem se mover, sempre firme, sempre estável, sempre ali no meio do caminho. Quero desistir, quero deitar no chão e choramingar, quero esmurrar os seus tijolos até sangrar, quero gritar aos sete ventos que odeio essa merda dessa parede idiota, mas nada disso me serve de nada. O outro lado continua do outro lado e correr desenfreadamente na sua direção só me faz quebrar a cara. É preciso paciência.

Você não tem essa barreira e não entende porque estaco do nada, afinal, o que é meu só é visível a mim e deve ser realmente estranho me ver tropeçando no ar, parando de súbito e aparecendo cheia de machucados sem que nada tenha me tocado. Você continua o caminho sem que eu consiga te alcançar e como no pesadelo grito sem voz, sempre sem voz.

Queria me entregar completamente ao toque que me toma por inteiro e deixar que tome, que leve, que sacuda, que inunde e que vire do avesso. Queria tirar as rédeas do corpo e deixar que ele corra livre para onde quiser mesmo sem saber para onde vai.

Acho que vou transformar minha parede em uma daquelas de escalada como você gosta e colocar do outro lado um tecido de acrobacia aérea como eu gosto para me soltar em quedas divertidas e bonitas. Talvez se eu olhar para ela por tempo o suficiente eu tenha ideias boas de como a usar, talvez se eu conseguir sinalizar que estou atravessando minha barreira você me espere um pouquinho e a gente se encontre do outro lado.

Cansei de brincar de cabo-de-guerra comigo mesma, meu corpo não aguenta mais se segurar em pé e minhas mãos estão duras de tanto tempo segurando firme. Vou me derrubar na lama um pouquinho, já passou da hora de me sujar.

4 de maio de 2023

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