25 — no escuro ao meio-dia

É engraçado escrever sabendo que minha mãe agora me lê assiduamente. Me sinto no palco da escola naquela apresentação que você nem comenta com ninguém e sabe que quem calhar de estar lá nem vai prestar atenção direito, então você vai ingenuamente para a frente de roupinha, coque e maquiagem no lugar e surpresa!!! A escola avisou por email e lá estão todos os pais sentados na primeira fileira de olhos bem abertos e ansiosos por ver seus bebês brilharem. Não é ruim não [oi mãe], só engraçado mesmo. E dessa vez, quem diria, quem convidou fui eu.

Me acostumei a sempre fazer minhas coisas no sigilo, no silêncio e no escuro da madrugada para que ninguém nem saiba que eu sequer àquela hora estava acordada. É uma sensação muito estranha ver meus rabiscos recebendo a luz do dia, mas um estranho bom. Me sinto mais livre de certa forma. Me sinto fazendo a coisa certa na hora certa sem me importar se estou fazendo certo, e assim continuo fazendo.

Comecei a montar uma estante que chegou e aparafusei e martelei e fui tão feliz botando a mão na massa quanto uma criança fazendo bolinho de lama. Gosto de montar coisas, de calejar meus dedos e me cansar por estar colocando no mundo uma coisa que antes não estava ali. A parte de trás não ficou tão retinha quando eu gostaria não, sinto muito, mas eu gosto muito mais de martelar do que de medir com cuidado e a empolgação foi quem falou mais alto. Ainda não terminei, amanhã tem mais, que bom.

Minha irmã me levou para ver um lugar bonito, mas estava muito escuro e só deu para ver um pedacinho. Eram várias pedras onde as ondas batem e, bom, é bonito. Gosto de ver pedras e gosto de ver onde a água bate e se enfurece até voltar a se acalmar. Senti a brisa do oceano no rosto e ouvi o barulho dos sonhos e achei lindo, mas o que realmente me chamou atenção foi o escuro. Aquele ponto do horizonte onde o azul do céu e o azul do mar se juntam só que nesse caso era onde o escuro do céu e o escuro do mar viraram um escuro só, tão longe que parecia estar dentro de mim.

Ela me contava alguma coisa e eu juro que ouvia, mas não lembro agora. Só me lembro do escuro infinito e pensei imagina estar lá. Agora quero um dia viajar de barco em mar aberto e passar uma noite cercada de silêncio e de escuro, deve ser maravilhoso e absolutamente assustador e se meus monstros não me comerem nesse dia acho que depois nunca mais.

--

--

pelo visto esse é o meu diário

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store