259 | domingo

aérea
2 min readMay 22, 2023

Um dia estranho como tantos outros tem sido, questionando o tempo enquanto unidade de medida e a percepção como perspectiva. Da minha janela vejo uma parte estática do que tem fora, queria ver movimento de pedestres, queria ver pessoas e não carros, queria ver pássaros em árvores. Taí, queria ver as árvores.

Os dias passam sem que eu saiba qual é qual mesmo que repita em pergunta o tempo todo: hoje é quinta, né? sábado? que dia é hoje? sexta, sexta, sexta. Domingo. Hoje é domingo. Ontem na verdade, porque sou trapaceira e escrevo o texto de ontem na segunda. Tem dias que precisam de um tempo para serem digeridos, mas quando dou tempo para digeri-los acabo perdendo-os pouco a pouco.

Memórias de momentos que preciso falar sobre e não consigo me inundam o tempo todo, talvez não seja essa a linguagem certa para eles e traduzi-los assim seria um desserviço. Talvez quem sabe um dia, os seguro bem firme no coração para mante-los vivos enquanto saio em busca de aprender o máximo possível.

Mais um carro sai, mais dois carros chegam no condomínio feito de carros. Mais carro na garagem do que gente em casa e ainda não consegui bater na porta da vizinha para avisar que estou morando sozinha e queria deixar uma chave com ela caso um dia eu esteja fora e seja inundada pela certeza de que tem algo errado com os gatos. Nunca tem nada de errado com eles, mas sou constantemente inundada pela certeza de que ao chegar em casa vou gritar em desespero, os vejo imóveis no chão enquanto giro a chave e respiro aliviada quando vejo todos vindo em minha direção.

Como é difícil bater na porta de frente para a minha. Eu conheço a vizinha e ela me conhece porque era amiga da minha mãe anos atrás quando ainda morávamos juntas, mas os anos se passaram e a pandemia aconteceu e eu bicho do mato como sou espero que quem esteja no corredor entre no elevador antes que eu possa abrir a minha porta. E se for uma hora ruim? E se ela não estiver querendo falar com ninguém? E se eu for tentar falar que estou sozinha e começar a chorar? E ela vai ser uma fofa porque é uma fofa e eu não vou saber lidar. A campainha é muito agressiva e vai que as crianças acabaram de se acalmar, mas se eu bater talvez ninguém me ouça. Parece simples e eu sei que é simples, mas ainda não consegui. Talvez amanhã.

Enquanto isso o ar gelado deixa tudo diferente e tentei porque tentei escrever, e realmente escrevi um bom tanto, mas nada que falasse algo então deixo tudo quieto e começo mais uma vez tudo de novo. Vejo o sol do lado de fora e sei que ele está quente, mas ele não chega até a minha varanda porque é só de manhã que ele vem, e de manhã eu não consegui acordar a tempo de me aquecer na sua companhia. Agora passo frio dentro de casa.

21 de maio de 2023

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