283 | coleção de absurdos

aérea
3 min readJun 15, 2023

Duzentos e oitenta e três dias se passaram e me pergunto cada vez mais por que escrevo e por que todos os dias e o que aconteceria se eu simplesmente parasse e por que é que eu comecei isso mesmo e como era a vida antes de começar e como vai ser a vida depois que eu parar e se eu vou parar quando eu chegar na data final e se isso tem relevância pra alguém em algum nível se vai virar motivo de orgulho na voz que fala sobre ou se vai ser só. mais. um. dos vários projetos largados na gaveta.

Se é só uma experiência pessoal com resultados pessoais que eu poderia muito bem passar a vida sem mas que um dia eu tive uma ideia inútil e só fui burra ou teimosa ou corajosa ou disciplinada ou só fui muito eu mesmo e me forcei a realizar essa ideia inútil pra gastar a minha energia em algo que pareça me levar pra algum lugar ao invés de me dedicar a algo que realmente poderia me levar a algum lugar. Porque a verdade é que eu tenho é muito mas muito medo dessa vida então arrumo toda e qualquer desculpa pra permanecer no lugar mais seguro do mundo, que é o começo de qualquer coisa.

Me pergunto me pergunto me pergunto me pergunto e ia dizer que nunca chego a lugar algum com essas perguntas mas a verdade é que eu chego a muitos lugares incríveis com elas e me respondo cada dia de um jeito novo com a mais absoluta certeza de que dessa vez eu finalmente achei a resposta que tanto queria. Me pergunto se existe uma necessidade de resposta e estudo todos os lugares de onde ela vem. Não a resposta, a necessidade. Me pergunto e me lembro de todas as poucas entradas de diário que fiz ao longo da vida e que guardo até hoje: dias espalhados ao longo de cadernos e anos sem nenhuma lógica de organização que não as páginas que calharam de estar por perto em dias em que a necessidade de respostas foi tão grande que as rasguei aos gritos no papel. Vejo esses duzentos e oitenta e três dias impressos empilhados alinhados cercados por páginas e mais páginas amassadas e lagrimadas escritas à mão durante noites insones. Sinto a falta de ver na minha letra o meu estado ao escrever e o seu gradativo cansaço.

Ia falar que escrevendo aqui sou sempre igual, mas seria uma mentira. É muito visível pra mim e não sei o quanto é visível pra vocês o quanto eu mudo de dia pra dia. Na escolha de palavras, no uso de vírgulas, no ritmo das frases, na queda dos parágrafos, nos dias em que uso "pra" e nos dias em que uso "para". E no dia de hoje tudo isso parece ser a resposta pras perguntas que cada vez mais me faço ao mesmo tempo que tudo isso não respondeu absolutamente nada. Costumo fazer isso de transformar questão em abstrato e talvez seja bem esse o ponto de tudo porque não acredito em respostas e acho que nunca acreditei. Pontos finais não me interessam a não ser que eles continuem em outra forma e poucas coisas me causam mais repulsa do que a certeza. Sou muitas coisas e como aprendi recentemente talvez uma das que mais me orgulho seja coerente.

Gosto de insistir no que é absurdo porque penso que é só através dele que chegamos a lugares absurdos. Me interessam lugares absurdos e por mais que possa não parecer escolho palavras a dedo, mesmo sabendo que uma palavra minha nunca é igual à mesma palavra sua. Vale sempre lembrar porque é de presunção que mal-entendidos são feitos e mal-entendidos se disfarçam muito de opinião.

14 de junho de 2023

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