285 | o dia em que eu não cheguei em casa

aérea
9 min readJun 19, 2023

Não consigo me lembrar de muita coisa quando penso no que aconteceu. Não lembro qual foi meu último pensamento antes da colisão. Não lembro do que eu estava sentindo. Não lembro.

Me lembro da visão do carro da frente se aproximando cada vez mais e de sentir o freio não funcionar. Me lembro de fechar os olhos. Eu acho.

Não me desesperei, não tentei desviar, não me assustei, não fiz nada. Senti os pneus deslizarem soltos no asfalto e observei enquanto a distância até a caminhonete azul escuro diminuía. Vi que ia bater e entendi que não tinha nada que eu pudesse fazer.

Não senti o impacto.

Meu rosto arde e meus olhos não abrem. Meus olhos não abrem. NÃO CONSIGO ABRIR OS OLHOS! O carro parado no meio da rua movimentada, preciso sinalizar antes que outra pessoa bata atrás, não consigo abrir os olhos. E o outro carro? Não ouço nada, não vejo nada, será que estão bem? Não veio ninguém aqui até agora, será que não vai vir ninguém? Será que estão machucados? Ninguém vai vir, sou só eu, preciso dar um jeito.

Abro a porta e sinto o ar fresco no rosto que queima. Os olhos começam a pouco a pouco se abrir. A primeira coisa que vejo é o display do som e percebo que a música ainda toca. Sempre quando tenho pensamentos catastróficos obcessivos e me imagino morrendo em um acidente de carro me pergunto o que estaria tocando quando encontrassem meu corpo. Dessa vez seria O Terno. Mas dessa vez eu não morri e ninguém vai saber o que eu estava ouvindo. Desligo o som.

Solto o cinto e saio do carro sem nem pensar que algo poderia estar machucado. Só sinto meu rosto sujo e em chamas.

O carro da frente parou longe e as portas se abrem quando começo a cambalear em sua direção. Dois homens saem por elas.

Vocês tão bem? Pergunto e não me lembro da resposta. Eles me cercam preocupados. Tá bem, moça? Tá machucada? Senta aqui, senta.

Tem que colocar o negócio atrás do carro. Você tem? Acho que sim, no porta malas, é pra ter. Quer uma água? Você tem água? Tem uma garrafa verde ali no meio dos bancos, obrigada.

TEM QUE COLOCAR O TRIÂNGULO, grita um motorista passando. TÁ PEGANDO, grito de volta. Otário.

O moço menor pega o triângulo e coloca no chão. Mais longe, grita o maior, mais, mais, mais, aí!

Sentada no meio fio luto para abrir a garrafa com as mãos trêmulas. Calma, mari, calma, tá tudo bem.

Qual o seu nome, moça? Mariana. Quer que chame o samu pra você? Não sei… Não sei… Não consigo parar de olhar para as minhas mãos. Pareço estar bem, me sinto bem e também nem um pouco. Não sei em qual estado estou. Acho que tô em choque. Não consigo saber ao certo sem olhar num espelho. Passo os dedos no rosto e sinto tudo arder. Acho que sim, respondo.

Tem coisa no meu olho. Aqui, lava a mão primeiro. O moço pequeno pega a garrafa e derrama água em minhas mãos com cuidado, primeiro elas, depois o rosto. Esfrego com cuidado e não para de sair sujeira. Sujeira do que? Só depois fui descobrir que eram meus cílios queimados que carreguei debaixo das unhas.

Qual é o seu nome? Mariana. Vem mais pra cá, Mariana, senta aqui mais pra frente que é mais seguro. Eles me acompanham até o meio fio entre os dois carros.

Os bombeiros chegam rápido e ocupam todo meu campo de visão. Um homem e uma mulher se agacham na minha frente e me avaliam com os olhos.

Oi, qual é o seu nome? Mariana. Quantos anos você tem, Mariana? 27. Você sabe o que aconteceu? Sim. Você perdeu a consciência em algum momento? Não. Foi você que saiu do carro? Aham. E veio andando até aqui? Sim. Tá doendo alguma coisa? Doendo não, meu rosto tá ardendo muito e meus olhos. Me sinto começando a chorar. Você raspa as sobrancelhas, Mariana? Ahn… Não.

Eu tô sem sobrancelhas?

Examina ela, fala ele. Posso tocar em você? Pergunta ela. Pode. Me fala se algum desses lugares que eu tocar dói, ok? Tá. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Você tava sozinha no carro? Sim. Você que saiu do carro? Sim. E caminhou até aqui? Aham. Você quer ir pro hospital? Não sei. Será que eu preciso? É recomendado por causa do impacto, não parece ter nenhuma lesão, mas é bom ter certeza ainda mais porque você tá sentindo sua cabeça, melhor não arriscar. Ok.

Ela sai para falar com as paramédicas que acabaram de checar com a ambulância. Olho ao redor confusa. Várias pessoas falam ao mesmo tempo. O bombeiro ainda está agachado na minha frente me olhando com atenção.

O que que eu preciso fazer? Você vai pro hospital agora. E o carro? O que que eu faço com o carro? Olho para a minha querida joaninha branca toda destroçada com pedaços espalhados pela rua. Foi feio, mais feio do que pareceu. Eu não sei o que que eu preciso fazer. Você tem alguém pra chamar pra ficar aqui com o carro? Você tem seguro? Ahn… Sim. Então você vai chamar alguém pra vir pra cá até o seguro chegar, como você vai de ambulância pro hospital significa que tem vítima, então vai ter que chamar polícia pra fazer a perícia, aí depois você vê com o pessoal do outro carro como que vocês vão fazer, se vocês tem seguro e essas coisas, isso vocês conversam depois. Tá.

As paramédicas me puxam para a ambulância. Qual o seu nome? Mariana. Quantos anos você tem, Mariana? 27. Tava sozinha no carro, Mariana? Sim. Já contatou alguém? Ainda não. Você mora sozinha? Sim. Você tem alguém pra chamar? Minha mente percorre por entre nomes e rostos. Mãe mora longe, irmã mora longe, namorado tá em aula, não quero atrapalhar ninguém, não quero preocupar ninguém, não quero dar trabalho. Tenho.

Mãos me deitam na maca e me imobilizam com o colar. Várias vozes falam ao mesmo tempo, tudo acontece ao mesmo tempo.

Cê tá livre? Posso te pedir um favor? Diga. Eu bati o carro, tô bem, mas tô precisando ir com a ambulância pro hospital pra checar. É… Cê teria como vir aqui ficar com o carro até que o seguro vem buscar? É… Eu tô nu… Numa ambulância e aí precisa chamar alguém pra… pra ficar aqui com o carro, cê poderia fazer isso pra mim? Misericórdia. Manda a localização. Tô indo.

Já chamou alguém, Mariana? Chamei. Quem você chamou? Minha amiga.

A ambulância começa a andar e o caos fica para trás. Deitada na maca com o pescoço imobilizado tento digitar com as mãos vacilantes acima da minha cabeça enquanto os olhos ainda piscam forte com dificuldade de enxergar. Percebo a fragilidade em minha voz ao enviar áudios, melhor digitar.

Mal consigo me preocupar comigo enquanto tento não preocupar ninguém. Mãe, tô bem, mas bati o carro, precisa ver do seguro, consegue ver disso pra mim? Fala com a Ana. Du, tô bem, mas bati o carro e preciso ver o que fazer com o carro, a mãe não tá me respondendo e eu não consigo falar direito, tenta falar com ela pra mim? Oi meu amor, eu tô bem, mas bati o carro e tô indo pro hospital, a Ana tá vindo ficar com o carro, não precisa se preocupar, vou dando notícias, ok? Encaminha número pra cá, encaminha número pra lá, manda localização, bota todo mundo pra ficar se repassando informação. Teria sido mais fácil só criar um grupo com minhas quatro pessoas, mas só pensei nisso depois.

Minhas quatro pessoas… Que bom que eu tenho minhas quatro pessoas. Deitada ali quase sem conseguir manter os olhos abertos e preocupada com o tanto de burocracia que eu não faço a menor ideia de como funciona me sinto sozinha enquanto quatro pessoas reorganizam seu dia inteiro e se mobilizam de improviso para me ajudar. Choro de choque, choro de dor, choro de preocupação, choro de gratidão, choro de amor.

Tá mais calma, querida? Pergunta a paramédica. Respondo com algum som que não forma palavras.

Não consigo ver o rosto de ninguém com esse maldito colar no pescoço e milhares de vozes falam ao mesmo tempo. Me esforço para tentar entender quando as perguntas são feitas para mim ou quando conversam entre si.

Ela tá sem acompanhante? Tá. Foi acidente de carro, sem lesão aparente, só queimadura no rosto e ardência nos olhos do pó do airbag. Tá sozinha, querida? Tô. Qual o seu nome? Mariana. Também me chamo Mariana. Ah, legal. Tá sentindo alguma dor? Não, só os olhos tão incomodando. Tá bom, qualquer coisa chama, tá? Tá. Avisa lá no raio x. Ela tá sem acompanhante? Tá.

Não quer que eu vá? A mensagem chega e não sei como responder. Até agora não sei como está a minha cara, só sei que não tenho mais sobrancelhas e sinto meus olhos inchados. Toco meu cabelo e sinto minha franja dura, será que está suja ou queimada? Não tenho coragem de abrir a câmera do celular. Quão ridículo é o fato de que eu poderia ter morrido ou me machucado muito feio ou machucado alguém ou matado alguém e estou aqui com medo de ser vista porque devo estar muito feia? É ridículo, mas é o que tem, que bom que estou bem o suficiente para poder me preocupar com algo ridículo.

Acho que quero, respondo. Ok.

Tudo leva muito mais tempo do que achei que levaria e dá muito mais enrosco do que pareceu que daria. Burocracias. Tadinha da Ana lá até agora sozinha. Cada uma em um estado diferente minha mãe e minha irmã fazem tudo funcionar da melhor forma possível. Eu deitada e imobilizada espero e tento acompanhar o que acontece enquanto a cada pouco vem alguém me examinar, medicar, checar. Minha família de sangue e minha família conquistada se movimentam em meu auxílio. Transbordo carinho pelos olhos ardidos por ter ao meu lado tantas pessoas dispostas a cuidar de mim e agradeço por ter com quem contar, nem todo mundo tem e não sei o que eu faria se tivesse que lidar com tudo isso sozinha.

Horas depois e ainda nada de eu ser liberada, nem o carro. As bexigas estão se enchendo sem ter como se esvaziar, as baterias dos celulares chegam no vermelho sem ter onde carregar e informações ainda precisam ser trocadas. O desespero começa a aumentar enquanto as logísticas se complicam.

2% de bateria e eu ainda sozinha sem nada ter se resolvido.

AMIGA, SOCORRO. Eu tô em casa, os policiais me abandonaram, me respondeeeee. Tô desesperada. AMIGA, SEU CARRO FICOU LÁ, E AGORA? Minha bateria vai acabar, calma, respira, minha irmã vai falar contigo.

1%

Du minha bateria tá acabando fala com a Ana porque os policiais largaram ela lá e aí o carro ficou num estacionamento ela chegou em casa porque ela tava sem bateria também ela tá desesperada fala com ela por favor minha bateria vai acabaaaar

Já falei com ela, o moço do guincho chegou lá, tá esperando ela voltar, tu que me pague uns lanches pra Ana depois dessa, coitada. Tô devendo todos os lanches pra ela depois dessa. O moço do guincho mandou melhoras.

Quase no fim do dia o meu rosto preferido chega e confesso doer um pouco ser vista nesse estado por esses olhos cheios de amor, eles não hesitam por um segundo e o coração que se segurava firme esse tempo todo despenca um pouco. Não olha pra mim, segura minha mão um pouquinho, por favor.

Foi só Pedrø chegar que tudo se resolve. A médica finalmente me libera depois de não encontrar motivos para me segurar e de tanta vontade de ir embora esquecemos que era para esperar ela voltar com a receita. A encontramos no caminho da saída, ops. Do lado de fora da farmácia pego o celular emprestado e mando áudios chorosos de notícias e agradecimentos.

O tão aguardado chuveiro parou de funcionar e o banho vai ter que ser de caneca. Rio. A vida tá engraçada hoje. Engraçada não é bem a palavra que eu usaria, mas ok.

Tá, vou responder por aqui mesmo, depois tu vê. Eu sei que você faria a mesma coisa por mim, tá. Tá tudo bem, não chore. Nada do que aconteceu foi sua culpa, só tô feliz que tu tá bem, só com uns pelos a menos. Te amo muito, pare de chorar, descansa aí.

Com chá de camomila no estômago e nos olhos, descanso aqui.

16 de junho de 2023

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