286 | boneca quebrada

aérea
3 min readJun 20, 2023

Não acho que tudo na vida precise fazer sentido, mas, pessoalmente, gosto de encontrar sentido na vida que me acontece.

O impacto que meu corpo sofreu durante o dia se converte em violência noturna, pois o inconsciente quando quer se libertar massacra sem dó, verte sangue e me faz assistir enquanto a vida escorre pela pele pálida. Já fiz minha escolha, agora não há mais nada a fazer a não ser trancar a porta e deixar que ela seja brutalmente assassinada do lado de fora. Acordo com os olhos selados e o rosto de um amor morto projetado por dentro das pálpebras.

Eu sei que no final as coisas deram uma desandada, mas a gente já foi muito bom junto, não foi? As últimas palavras ditas em vida dentro do sonho ecoam póstumas na mente acordada.

Gaze embebida de chá de camomila nos olhos para os desgrudar. É um novo dia.

Passo na frente do espelho e pela primeira vez não me encontro. Nunca antes vi meu rosto deformado e a repulsa sobe ácida pela garganta, sua voz de escárnio sussurra metálico em meus ouvidos enquanto me recuso a comer, não consigo, não desce.

A cama é a única que aceito me receber enquanto ignoro chamadas e mensagens carinhosas. Não quero falar com ninguém, me deixem em paz! Ingrata. As pessoas só querem o seu bem, estão preocupadas. Me deixem em paz!

Tem dias que o buraco chega perto demais e eu o sinto puxar ao meu lado. Tudo o que preciso é abrir os braços que caio, me deito em posição fetal na borda. A falta de amor faz o silêncio doer e não consigo me amar se não me enxergo no espelho.

O que acontece com um rostinho bonito quando ele apodrece? Se meu cabelo é minha personalidade meu rosto é minha identidade e machuca perceber quanta importância eu mesma dou para a minha imagem.

Depois do que parecem milhares de mensagens perguntando se eu já comi e me falando para comer, levanto da cama mesmo essa sendo a última coisa que quero, desço as escadas em silêncio e com o cuidado para que ninguém me veja, abro a geladeira e sirvo o prato de macarrão com molho de cogumelos que eu sei estar maravilhoso e ainda assim não me apetece. Subo as escadas com o prato quente e olho para a cama… Me sento na mesa da varanda.

Olho para o prato sem que ele olhe para mim. Parece errado comer e me pergunto de quem é a voz que me rouba o apetite. Enfio uma garfada a contra-gosto na boca. E outra. E outra. E outra. Me recuso a deixa-la ganhar, ela que se cale.

Meu amor me traz um agradinho. Estou no seu quarto, na sua casa, comendo a comida que sua vó faz só para mim e ainda recebo um docinho trazido da rua. Me sinto mal com o quanto me sinto bem e o monstrinho encolhido no espelho me olha triste, parece que todo mundo ainda consegue me enxergar nele, menos eu.

Qual é o sentido disso aqui se não for pra mimar o meu amorzinho quando ele mais precisa? Como o mousse, e metade do cookie, e agora que silenciei a falta de apetite não consigo mais parar de comer.

Assisto enquanto prepara uma sopa de brócolis para mim, a sopa tão prometida e tão saborosa que só de existir em pensamento já me aquece a barriga. Não consigo evitar as lágrimas ao me sentir tão cuidada, nem o sorriso.

Às vezes esqueço da máscara queimada que carrego nos olhos e me permito existir, mas quando você olha para mim desse jeito me lembro e sinto a vontade de me esconder. Você ainda tá naquela lombra de não olha pra mim!? Meio que sim, tem outras coisas agora junto e tá chegando de outra forma, mas sim.

Paro na frente do espelho e ouço as vozes que se acumularam durante minha vida inteira: Que linda ela, parece uma bonequinha, olha, igual boneca de porcelana, igual uma fadinha, linda linda, olha esse rostinho perfeito. Todas ao mesmo tempo elas falam até que se tornam uma só, fico triste ao perceber que a voz que ouço agora é a minha.

O dia que começou com tanta dor termina com a melhor sopa que já tomei na minha vida, ela desce quentinha e lambe as minhas feridas. A menina que não saia de casa sem maquiagem agora olha nos olhos da pessoa que ama com a porcelana quebrada. Roxa, inchada, queimada, manchada te deixo me amar imperfeita e começo a dançar.

17 de junho de 2023

--

--