292 | cê vai deixar essa chance passar mesmo?

aérea
2 min readJun 24, 2023

De óculos escuros para proteger os olhos ou a imagem controlada? É a luz que não pode entrar ou os cílios queimados que não podem sair?

Na comprida mesa de bar daquelas com mais gente do que os ouvidos dão conta de acompanhar desisto dos ouvidos e recorro aos olhos, eles que estão escondidos por detrás das lentes escuras como costumam se esconder atrás das lentes da câmera. Ou costumavam, já que minha antiga companheira descansa eterna em sua própria maleta em algum armário que nem me lembro qual.

Olhos cansados, olhos pontiagudos, olhos contemplativos, olhos ligados, olhos que buscam, olhos que encontram, olhos fechados.

Por detrás das lentes escuras estou presa, a conexão tem dificuldade de chegar até mim e eu tenho dificuldade de chegar até ela. Tiro os óculos depois de certo ponto, mesmo que a luz incomode um pouco, e percebo que é menos sobre eles e mais sobre mim. Sempre encontro algo que me esconda no final das contas e é por isso que só faço amizade com vendedores em lojas quando vou sozinha. Me escondo atrás de quem puxe assunto por mim, de quem fale de mim por mim, de quem me faça o favor de me mostrar para o mundo já que eu tenho tanta dificuldade de me colocar nesse lugar.

Mas será que tenho mesmo? Será que não é mais essa uma desculpinha esfarrapada para não sair da zona de conforto que criei dentro dessa identidade de bicho do mato? Claro que é. É tudo desculpa porque como até hoje lembram as canelas, crescer dói.

Não quebrei a cara, mas a queimei e feito cerrado tenho a oportunidade de renascer da minha própria combustão. Torta, estranha, seca, errada. Que meus galhos nunca cresçam na mesma direção da qual já foram cortados.

23 de junho de 2023

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