293 | um dia desses que a gente vive

aérea
4 min readJun 27, 2023

Acordamos eu e você na sua casa, não, na minha casa depois de uma noite de que? Como é que foi a noite anterior mesmo? Escrevo na segunda sobre o sábado e já não me lembro de como o dia começou.

Aé, sim. Acordamos na minha casa depois de uma noite boa demais, daquelas que já é boa por si só, mas a gente do nosso jeitinho vai lá e faz ficar melhor. Você tinha aula pra dar e dormimos pouco porque dormimos tarde, logo, acordamos com pressa. Cortei os melões e fiz café, você comeu melão e eu tomei todo o café depois. Tá certo, eu bebo muito mais café do que você mesmo.

O que é que eu fiz depois de te mandar beijos e te-amos pela porta do elevador? Devo ter lavado a louça ou varrido a casa ou juntado as roupas espalhadas por todo lado. Acho que escrevi. Ah, não, lembrei, comecei um novo livro enquanto bebia o café e comia castanhas. Isso, foi isso, eu acho.

Almocei e você me pediu um favor. Eu já tinha que ir ao shopping eventualmente mesmo, por que não hoje? Claro, faço sim, pode deixar. Pois fui comprar os seus negócios e passear em busca dos meus. Quatro calcinhas e um top depois ainda não tinha encontrado o presente pra amiga que sempre dá presente. Claro que passei horas vasculhando a livraria mesmo com todos os tantos livros ainda não lidos empilhados pela casa desde que a estante na qual eles moravam foi desmontada.

Não satisfeita com um shopping inteiro fui caminhando para o outro e descobri lá uma feirinha daquelas cheias de terecotecozinho que gosto, lá também vasculhei a livraria. Presente comprado, agora tá na hora de passar também no mercado porque o papel higiênico acabou. Passei no mercado ruim porque era o mais perto e eu já estava cansada e com as mãos ocupadas, não ia dar pra carregar muito mais de qualquer jeito.

Volta pra casa e vai se arrumar que ainda tem muito chão pela frente. Eu que nunca gosto desse esquema de dar uma passadinha num lugar antes de ir pro outro decidi que ia ser isso mesmo, afinal, quero dar um abraço de parabéns pra minha amiga, mas também quero ver o seu show — sempre me refiro a você como você por aqui e acho que é porque sei que está lendo, ou talvez seja uma opção estética da minha parte, ou talvez conceitual, quem é que vai saber dizer.

Como dizia, me arrumei com muito esforço e sofrimento porque o rosto machucado ainda não permite maquiagem e como é que eu vou não pra um, mas dois eventos de cara pelada? Não pode ser. Não me aguentei e dei uma passadinha onde dava pra disfarçar pra você me olhar feio com a cara linda. Cuida do seu rostinho, bem. Não te aguento, te encho de beijo. Mas isso foi depois.

Saio de casa atrasada porque nenhuma das roupas combina com quem eu sou hoje. Jogo todas na cama como cena de filme e me sento em cima do monte frustrada. Por fim, decido pelo vestido antigo que nunca mais usei e que de tão antigo que é te é novo, mas você não fala nada. Se não reparou ou não gostou, tá tudo bem, nem tudo é sobre mim, mesmo que por aqui tudo seja, e você estava cansade. Mas isso também foi depois.

Chego no bar e não encontro a mesa, será que vim pro lugar errado? Eu não avisei que vinha, será que mudaram de bar e não me avisaram? Espero um pouco e a encontro no grito. Tão acostumada a falar com os olhos, reconheço o sentimento por trás do sorriso que se levanta fechado ao responder um ah… indo. Toda vez que encontro as amigas fico querendo encontrar mais, mas tem acontecido pouco.

Falei que ia ser só uma passada e foi isso o que foi. Logo você passou pra me buscar e fomos pro lugar que ainda não decidi como me sinto a respeito, mas os banheiros são limpos e isso é um fator determinante. Todo mundo cansado nesse sábado, todo mundo de monster na mão. Enquanto Gaivota voava voaram pelas paredes pretas Rabisca, À Risca, Arrisca e assim concebeu-se Arisca. No banheiro limpo a vi no espelho e falei até já.

Mais um show pra nossa conta e o segundo que te vejo no palco. Meu coração transborda pelos olhos e choro horrores na parte que já te fez chorar e que quando você me mostrou na minha cozinha me fez chorar também. Cercada por música vivo o melhor lugar do mundo e queria falar mais sobre tudo o que sinto, mas por essa linguagem nesse momento não vai ter como. Queria falar sobre os vários momentos em que eu te amo, mas não dá, te mostro nos olhos e os traço na língua.

Quanto tempo faz que não falo nada? A roda conversa e eu ouço, rio, faço caretas e me equilibro no calcanhar, mas agora que pensei nisso faz muito tempo realmente que não falo nada. Não tenho nada a dizer, oras, não é porque não tenho nada a ver com o assunto que não o ache interessante. Começo a reparar nos invisíveis como eu, ouvintes atentos dos quais ninguém conhece a voz e sinto o conforto de não estar só.

Te olho pensando ‘vamos?’. Você fala podemos ir logo, né? Longos tchaus depois, voltamos ao carro e penso ‘que sorte a minha de existir nessa vida ao lado de tu, de presenciar tudo isso que é tu, de poder te ajudar e com tua ajuda ser apresentada ao que tenho gostado de estar me tornando’. Gosto do jeito que fazemos silêncio.

Chegamos. Comemos. Dormimos. O dia acabou.

24 de junho de 2023

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