301 | o que foi?

aérea
2 min readJul 4, 2023

Deixa o arqueiro ir…

O que foi? Você me pergunta assim que levanta da cama. O que? Pergunto de volta. Cê tá com cara assim, e franze as sobrancelhas pra mim. Nada, respondo. Tava sonhando? Talvez, não sei, não lembro.

O que foi? Você me pergunta quando eu saio do banheiro. O que? Pergunto de volta. Cê fez aquela mesma cara, e franze as sobrancelhas. Tava lembrando que eu sonhei sim. Sento na cama e te conto o que lembro do sonho até acordar no susto e ficar confusa.

O que foi? Você pergunta quando terminamos de almoçar. Espero os sentimentos se assentarem no fundo do estômago e te conto tudo o que foi e que continua sendo. Não é a toa que perdi a voz. Nunca é a toa quando perco a voz. Também não é a toa quando perco o apetite.

O silêncio cai pesado entre as palavras que pouco fazem pelo coração, não é por elas que ele fala. Os olhos se estendem em busca de conexão enquanto a lua cheia em capricórnio ilumina as muralhas, as minhas, as suas e as nossas. Nos enxergamos por trás dos vidros de nossas janelas sem saber por onde ir.

As frases perdem o rumo quando saem pela minha boca e não conseguem te alcançar.

O que foi? Eu te pergunto deitada na rede daquele jeito que a gente deita quando vejo seu rosto mudar. A gente é cheio dos nossos jeitos. O que? Você pergunta de volta. Cê fez uma cara… E franzo a sobrancelha. Ando reparando muito nas suas caras, como quem espera por algo que não tem como se preparar. Ah… Fiquei pensativo com essa conversa toda, você responde sem responder porque não existem respostas sobre o futuro agora. Queria dizer que também fiquei pensativa, mas a verdade é que dentro de mim só há oco.

E eco.

why don’t you like hugging, doctor?
never trust a hug, it’s just a way to hide your face

Tem dias que a gente precisa sentir umas coisas difíceis, falar umas coisas difíceis e permanecer em silêncios difíceis. Tem dias que a gente precisa se encarar.

E depois tomar um banho demorado.

2 de julho de 2023

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