312 | a ponte

aérea
2 min readJul 15, 2023

Há exatamente um ano atrás essa mesma ponte era cruzada. Por debaixo dos arcos iluminados uma menina seguia o seu ouvido em busca de uma nova vida, uma maior do que aquela que ela vinha vivendo e que nos últimos anos por circunstâncias maiores que ela virou cativeiro. Trancafiada dentro de si à oito chaves — seis das quais nem ela sabe onde escondeu porque, afinal, depois de tanto tempo já há muito perdeu a conta — nem percebeu que as rachaduras na pele abriram brechas muito mais fundas do que a secura do ar do cerrado podia causar, rachaduras essas que abriram-se de dentro para fora rasgando camada após camada do corpo abandonado em uma tentativa desesperada de explodir.

Essa jornada que começou com a busca pela voz perdida no ar, escondida no peito, esquecida no berço e rala no sangue continua aqui, se buscando nas águas que correm do chuveiro iluminado de azul.

Lá atrás quando cruzava a ponte não fazia ideia que levaria horas para voltar, tantas horas que o dia teria virado noite e depois de muita alma ser lida em voz alta ouvia outra voz a chamar de fascinante. Ao redor da piscina os olhos brilhantes no fundo dos seus, a nuca arrepiada, a dúvida na cabeça e o despontar de algo na boca do estômago.

A mente focada em cada um dos fios de cabelo e as mãos hábeis começam a picotar pela primeira vez os cachos que não muito depois estariam se misturando às mechas coloridas no travesseiro e que exatamente um ano depois são cortados de novo com a mesma atenção.

Cruzo a ponte em seu futuro e penso nela lá atrás e em tudo o que viveu até chegar aqui. Abro as janelas e respiro o ar gelado da noite como já virou nossa tradição, rio sozinha e rio com ela ao passar por cima do lago mais uma vez. Um ano atrás uma ponte foi cruzada. A partir dela mais tantas.

O vislumbre de um raio cortando a estática a desperta em choque, mas isso veio não muito depois.

13 de julho de 2023

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