333 | algumas portas são melhores fechadas

aérea
3 min readAug 3, 2023

Acordei cedo hoje, mais cedo do que eu deveria e olha que a hora que eu deveria acordar já era bem cedo.

Enquanto o pintor terminava os serviços que estava há mais de duas semanas fazendo no apartamento, terminei de ler o livro do Stephen King que nomeou o texto passado. Fazia tempo que não lia nada do meu autor queridinho e esse foi um bom momento para devorar mais um, especialmente esse, especialmente agora.

Dei uma murchada na escrita, né, acho que deu para perceber. Me ausentei daqui por um tempo porque precisei, porque quis, por vários porquês, e agora consigo entender melhor alguns deles.

No livro, Stephen — vou chama-lo pelo nome mesmo — fala sobre o quanto é essencial que o escritor tenha em seu espaço de trabalho uma porta que possa fechar. Uma porta que deixe o mundo externo do lado de fora para que os mundos internos possam ser criados sem interferência. Uma vez que a primeira versão esteja pronta, o material vai dormir na gaveta e lá fica até que se torne estranho para o seu próprio autor, porque, diz ele, é muito mais fácil matar os queridinhos de outra pessoa do que os seus.

A porta só se abre depois. Depois de voltar e reler tudo com o olhar já frio de quem já direcionou a sua empolgação para outro projeto e depois de fazer as anotações e correções em uma segunda versão. É aí que se abre a porta, que se deixa aquelas poucas pessoas escolhidas a dedo receberem o seu precioso bebê.

É aí que o mundo externo entra para acrescentar, para apontar buracos, elogiar, criticar e questionar. Aí e só aí. Antes disso, a interferência só faz multiplicar a voz na cabeça que, para ser linear e, mais importante ainda, sincera, precisa ser só uma.

Não, eu não estou escrevendo um romance, essas são meras crônicas vomitadas nos horários aleatórios em que eu pude — e quis — me retirar do mundo para escrever. A questão é que a vida se tornou mais gostosa e também mais cansativa, e me retirar de uma conchinha para estar aqui só não fez nenhum sentido.

Os vômitos antes ritualisticamente esparramados em privadas de ouro começaram a jorrar às pressas conforme o saco foi ficando cheio. Às vezes, nem ao banheiro mais eu tinha tempo de chegar. Como já deu para imaginar, a coisa foi ficando feia, o chão foi ficando sujo e as roupas respingadas começaram a feder. Expurgar palavras deixou de ser um ritual e se tornou obrigação, consequência, bagunça.

E aqui, nesse reino sem portas, minha sujeira ficou exposta.

Quando comecei a escrever, mais lá atrás do que eu consigo resgatar, comecei porque ver meus pensamentos caóticos em fila no papel me ajudava a me entender melhor e o que surgia em angústia terminava em coerência.

Dia após dia, a angústia foi se acumulando sem tempo para ordenação somada aos pensamentos de quem possa estar me lendo. O que é que vão pensar? Empurrando a voz invasora para o lado fingi não a ouvir, mas sempre estive ouvindo e ela sempre soube. Entediada e irritada, ela imitava as vozes de pessoas queridas enchendo a sala de barulho. A minha sala.

Não vou fechar a porta — ainda. Não vou porque ainda não deu o meu tempo e eu, como Pedrø fez questão de me lembrar ainda ontem, sou cabeça dura quando sinto que preciso. Falta pouco.

Não vou fechar a porta, mas também não vou mais me sentir em casa. Não aqui. Sou uma pessoa privada, sabe, e a autoconsciência me esmurra sem dó bem no meio da cara quando sinto qualquer presença ao meu redor.

Sinceramente? Cansei de ser espancada. Preciso de espaço e de tempo para pensar em paz sem a possibilidade de ser invadida a qualquer momento pelo mundo. Preciso pensar em paz, diabo, é só assim que consigo pensar direito.

3 de agosto de 2023

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