334 | é… chegou a hora

aérea
3 min readAug 4, 2023

Meses atrás começou o processo de pintar o apartamento. As paredes que um dia foram brancas imploravam mudança, sedentas por uma nova camada de tinta. Manchadas, xoxas, anêmicas e inconsistentes como a humana que as habitava.

Não ficou exatamente como eu queria, mas nem eu sabia muito bem o que eu queria, então tá tudo bem. O importante é que agora elas são minhas e daqui para a frente a gente se resolve.

Daqui para a frente…

Me acostumei com a presença de Vitor aqui. Por mais de duas semanas ele veio e foi recebido com o café que nem sempre tomou — e quando ele não tomava, eu tomava, afinal, nada se perde, né?

Vitor não era de falar muito. Nem eu. Ficávamos os dois em silêncio enquanto ele lixava, emassava, lixava, pintava, lixava, pintava, lixava, pintava, até que alguma parte ficava pronta e ele me chamava para ver, ou perguntar alguma coisa, ou pedir ajuda para segurar a porta levantada enquanto colocava os parafusos no lugar.

Foi por causa dele que comecei a acordar bem mais cedo do que antes, mas uma vez que o relógio biológico se ajustou, comecei a acordar cedo por mim também.

Vitor terminou o trabalho e foi embora ontem ao meio dia. Acabou... Finalmente acabou…

Só que acabou só a parte dele, agora é a minha hora de trabalhar. Hora de tirar tudo aquilo que foi guardado nos lugares errados dentro de todos os armários e decidindo onde agora vão morar. Hora de me desfazer do que não faz mais sentido. De decidir como quero ocupar cada espaço do espaço que agora é só meu — e dos gatos. Chegou a hora de morar.

É a primeira vez que moro sozinha e confesso que pensei que seria muito mais difícil. Gosto da minha companhia, gosto de viver no meu ritmo e gosto de estar envolvida em silêncio exatamente pelo tempo que eu quiser. O mais difícil é fazer comida, e saber que consigo continuar funcionando por grandes períodos de tempo sem alimento é um problema.

O momento que eu tanto queria que chegasse agora é real e luto contra a tentação de passar o dia inteiro fazendo qualquer outra coisa que prorrogue a etapa presente. Há muito o que limpar ainda para que o espaço se torne confortavelmente habitável e passar a carroça na frente dos bois só vai me fazer capotar mais para a frente.

A lua que mingua em peixes não me dá muitas forças, na verdade ela as tira de mim enquanto toca meu saturno. A vontade de reclamar do mundo é grande demais. É tudo muito difícil, sabe, ai meu deus como eu sofro. Sejamos sinceros, é esse o chororô que acontece aqui dentro e tanto eu quanto você sabemos muito bem.

E é por isso que não como. Porque saber que só consigo existir no mundo estando dentro de um corpo me faz querer não querer fortalecer esse mesmo corpo, porque fortalecer esse corpo significa que eu vou ter que sim arregaçar as mangas e botar a mão na massa. Enquanto me falta ferro posso me esconder atrás da desculpa de que estou muito fraca, muito cansada, que a vida é, sim, muito difícil para mim e me desculpa, mundo, mas hoje eu não consigo fazer nada.

Porra, inferno de saturno que já começou a me espremer. Entendi, tá, entendi, eu sei… Que saco, eu sei. Vou assumir responsabilidade por mim e blábláblá. Eu vou, tá bom, eu vou… Tô indo, tô indo… Não, eu sei, não depois, agora, vou fazer agora, hoje ainda, agora mesmo, tá bom, credo.

4 de agosto de 2023

--

--