36 | dirige aí, vai

Sempre fui muito permeável ao que me rodeia e é por isso que sempre precisei tanto ficar sozinha. O simples fato de existir uma outra pessoa presente ali faz com que eu esteja sujeita a alterar toda a minha rota, mesmo que ela não esteja nem aí para mim e muito menos para o que eu estou fazendo, mas eu não só ligo como me moldo e me adapto a favor ou contra qualquer movimento que não seja o meu.

Isso tem ficado cada vez mais claro e cada vez mais bizarro. Pra que isso, doida? Só continua fazendo o que você tava fazendo, oxe, não precisa interromper só porque alguém chegou. Mas eu sempre paro. Por que? Simples, porque eu sou trouxa. Fico puta da cara com a interrupção, incomodada com a ousadia que alguém pode ter de ocupar com ela mesma um espaço compartilhado, mas quem interrompe sou eu, a outra pessoa segue ali de boas fazendo o dela sem nem ligar se eu paro ou continuo. Não tem nada a ver comigo e, afinal, por que deveria?

Tenho exercitado me manter na minha rota, mas também é difícil quando sei que posso ir ao outro extremo e me tornar inflexível demais. O que faz sentido, na verdade, considerando que minha rigidez nada mais é do que um mecanismo de defesa feito sob medida de mim para mim justamente por eu saber que sou tão molenga que se eu abrir uma mísera fresta pronto, já era.

Sei que existe um meio termo e é atrás dele que tateio meio às cegas, meio guiada, meio no automático, meio na intuição. Tateio minhas bordas na tentativa de encontrar um portão que eu possa abrir e fechar conscientemente ao invés de oscilar entre ser muralha e campo aberto. É sobre ser permeável quando cabe, quando a troca faz sentido; e quando não fizer saber deixar que o que quer que seja escorra por e para fora de mim como água em pele banhada de óleo.

Aprendi —e ainda estou aprendendo — que eu também tenho o poder de conduzir uma interação e de colocar o que quer que seja naquele espaço. Me senti fraca e feia ao perceber que durante minha vida inteira usei pessoas como muletas para que eu não precisasse tomar as rédeas de nenhuma situação. Ontem quase te dei a chave do carro para dirigir para mim porque fiquei com preguiça, mas segurei esse pensamento e o joguei pela janela. Sim, é mais fácil ter alguém que me leve para onde eu quero chegar, afinal, vamos para o mesmo lugar, mas eu sou plenamente capaz de segurar o volante de vez em quando e, literalmente, conduzir o movimento.

10 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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