38 | marte em libra

Olhei em seus olhos e vi a dor que estou te causando. Foi só aí que percebi o que eu já estava percebendo há um tempo. Sabemos os padrões que reproduzimos, sofremos nossas vidas inteiras com os padrões que reproduzimos e mesmo assim os reproduzimos. Você se desliga do que incomoda e eu me torno cada vez mais hostil. Ambos viciados em falar que está tudo bem, passamos por cima de nós mesmos e nos afundamos cada vez mais em nossas próprias defesas: você recua cada vez mais para dentro de si e eu, sentindo a distância, mas não conseguindo me aproximar, crio espinhos finos e pontiagudos que te alcançam onde estiver.

Respondo sem paciência, recuo ao seu toque, não compro o agrado que eu queria comprar para você por pura mesquinharia. É comigo o problema e eu sei, sou eu que não estou falando que existe um problema que ao sair se torna tão pequeno e facilmente corrigível, mas por dentro corrói tudo de bonito que somos até que, se eu deixar, não sobre mais nada. Ainda é cedo demais para tudo isso — ainda bem — , mas conheço muito bem os sinais para deixar que a situação evolua, cresci assistindo essa novela em primeira mão e não é isso que quero para mim, não é isso que quero para você e não é isso que quero para nós.

Reclamo da louça na pia querendo que você entenda que eu quero que você lave a louça sem que eu te peça, mas não é a louça na pia que me incomoda. Reclamo das compras caras querendo que você divida melhor os gastos comigo sem que eu te peça para dividir melhor os gastos, mas não é o dinheiro que me incomoda. Reclamo de tudo e qualquer coisa que não seja exatamente a única coisa que eu quero reclamar porque reclamar disso significa me colocar de novo em suas mãos e correr o risco de ser derrubada no chão.

Olho em seus olhos e só então percebo o golpe que te dei. Você se segura em pé fingindo não sentir, mas sangue escorre por entre seus dedos e pinga no chão. Tá tudo bem, as palavras saem no tom de voz mais neutro e impessoal do mundo enquanto a cabeça se abaixa e as mãos continuam preparando a comida mecanicamente. Procuro seus olhos, mas não os encontro de jeito nenhum. Ei. Seguro seu rosto e te faço olhar para mim. Demora um tempo, mas eventualmente te enxergo em algum lugar bem lá no fundo. Tá tudo bem não estar bem, ok?

Quando se escolhe estar ao lado de alguém, uma hora ou outra se recebe e se dá umas cotoveladas. A gente sendo a gente se tropeça e se machuca sem querer, faz parte, o importante é não ser essa a intenção, te falei um tempo atrás, o importante é a gente ficar e se ajudar a se curar. Essa sou eu dando mil passos para trás na busca da bifurcação que me fez chegar a esse ponto. Eu quero ser vista, meu bem, preciso ser ouvida. Quanto menos eu recebo sua atenção menos eu quero te dar a minha, e quanto menos eu te dou a minha menos você me dá a sua.

Dois martes em libra que não querem brigar e não querem confusão, então se escondem atrás de tá-tudo-bens e não-foi-nadas até que, efetivamente, não sobre mais nada, mas o meu já pega uma pontinha de escorpião e te dá a apunhalada que a gente precisa pra parar com essa palhaçada.

12 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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