44 | os corpos que nos carregam

O corpo aguenta muita coisa em nosso nome, mas chega uma hora que ele não aguenta mais. Ei, que tal você parar um pouco? diz ele, mas não lhe damos ouvidos e continuamos aumentando e aumentando nossas cargas até que a sugestão se torna um pedido. Por favor, você pode parar um pouco? Pensamos que agora não, agora ainda não dá, mas depois quem sabe, em breve, sim, em breve vamos descansar. Para, por favor! O pedido se torna uma súplica e de joelhos nossos corpos imploram por nossa compaixão. Viramos os olhos e passamos reto por ele até que, exausto, ele apela para a única coisa que vai nos alcançar, a ordem. PARA, AGORA!

Tudo tem um limite, especialmente nós. Nos ignoramos porque o mundo age como se fossemos e excessão, como se o normal fosse passar a vida correndo de um lado para o outro até que nem saibamos mais para onde corremos, mas já não sabemos mais o que é estar parado. Quando desaceleramos ficam óbvios os sinais que o corpo nos envia e de onde vieram, fica óbvio que esse mal estar veio daquela comida e que na verdade, pensando bem, toda vez que você a come você passa mal, então talvez seja melhor parar de comer, não? Fica óbvio que essa dor de cabeça vem de um excesso de estímulos que cansa os olhos, então ao invés de tomar um remédio e continuar o dia inteiro na frente da tela que piora o problema, você só termina o que precisa fazer e depois vai descansar no escuro.

Meu corpo é extremamente responsivo e não guarda muita coisa dentro de si. Desde que nasci tenho intolerância à lactose e não conseguia mamar o leite da minha própria mãe, mas na época ninguém sabia o que era isso e passei os primeiros meses da minha vida mamando e chorando de dor porque aquilo me era veneno. Talvez seja o fato de eu não querer mais me envenenar, talvez seja o fato de meu corpo ser extremamente responsivo, talvez seja os dois ou talvez até nenhum, mas presto muita atenção ao que meu corpo me fala e a sua linguagem faz cada vez mais sentido para mim, ouço seus conselhos porque acredito na sabedoria que existe em minha pele, que me acompanhou silenciosamente durante minha vida inteira. Quando ela se manifesta, é porque tem algo importante a dizer.

Então, meu bem, se seu corpo está gritando para que você descanse, descanse, não se sinta mal com isso, sinta que está dando a ele exatamente o que ele precisa. Não queira estar melhor logo, queira estar melhor e faça o que for preciso para se fortalecer, é só assim que se chega do outro lado. Aproveite esse momento em que seu corpo te mostra a sua vulnerabilidade e acolha-o, acolha-a, acolha-se. Conecte-se com ele que te carrega pela vida todos os dias sem parar e agradeça.

18 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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